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CATULLO DA PAIXÃO CEARENSE

por Maria Carolina Coelho

Filho do ourives Amâncio José da Paixão Cearense e de Maria Celestina Braga, o menino Catullo correu pelas ruas e casarões da sua cidade com os irmãos Gil e Gerson até os dez anos, quando mudou-se com os pais, para a fazenda dos avós paternos, no sertão cearense.
No contato com a gente simples, bebendo desta sabedoria e se fartando deste imaginário matuto, o futuro violonista soube coletar os mais puros motivos e recriá-los, além de registrar as peculiaridades lingüísticas do caboclo da caatinga. Suas modinhas, que a tantos agradaram no ocaso da monarquia e nas primeiras décadas da república, refletiam também o estado de espírito do boêmio, sempre a declamar apaixonado e muitas vezes desprezado pela sua amada.
Uma das mudanças mais marcantes na vida do artista aconteceria em 1880, quando a família muda-se para o Rio de Janeiro, sede de um império deslumbrado com Paris e tentando imitar os ares progressivistas da belle èpoque francesa. Uma vez lá, o violonista iria presenciar importantes fatos políticos como a “Proclamação da República”, e as subsequentes crises políticas dos presidentes Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.
Lá, em companhia do flautista Joaquim Callado, do violonista Anacleto de Medeiros e do cantor Cadete, o poeta trocou a flauta pelo violão, instrumento ao qual foi iniciado por um estudante de medicina.
Mas o começo não foi de glamour. Assim que chegaram, morreu a mãe, vindo o pai a falecer três anos depois.
O boêmio teve que trabalhar. De dia pegava no pesado no cais, onde era estivador, e à noite embaixo das sacadas, entoando suas canções.
“Aprendi música, como aprendi a fazer versos, naturalmente. (...) Com gramática ou sem gramática, sou um grande poeta!” dizia o velho marrueiro.
O casamento de Catullo com o violão que o imortalizou, se deu aos 19 anos, quando largou os estudos para se dedicar ao instrumento tido como propício das "rodas de capadócio". Quem fosse de boa família jamais andaria com um desclassificado que ostentasse um pinho! Sua primeira modinha famosa “Ao Luar” foi composta em 1880.
No dia 5 de julho de 1908, Catullo revolucionou os padrões músico-culturais da época, quando a convite do Maestro Alberto Nepomuceno, fez um recital de violão no "Conservatório de Música", templo da música erudita de tradição européia: o sucesso foi geral e a platéia o aclamou. Até críticos desafetos lhe pediram desculpas.
Neste momento a modinha ganhou ares de civilidade e suas riquezas melódico-harmônicas caíram no gosto da classe dominante.
Em 1910, o maranhense extrairia da melodia do côco “É de Humaitá” a sua “Luar do Sertão”, que tornou-se imediatamente um clássico da nossa música. A polêmica foi instaurada porque João Pernambuco reclamou autoria da música, o que ainda hoje é discutido entre os seus historiadores.
Nas décadas seguintes, o tempo só fez coroar aquele que tirou o violão dos ambientes sórdidos e ajudou na consolidação da modinha que, ao lado do lundu, foram os primeiros gêneros musicais surgidos no Brasil.
Dentre os seus divulgadores principais está o cantor carioca Vicente Celestino, que fez sucesso entre os anos de 1937 e 1942, interpretando Catullo, além de Paulo Tapajós, Orlando Silva e Carlos José.
A última homenagem digna de registro que se tem notícia foi a regravação de “Luar do Sertão”, feita por Luiz Gonzaga e Milton Nascimento, em 1986, em um dos últimos discos do rei do baião.
Publicou dez livros de canções - com modinhas em estrutura semelhante aos cordéis - com letras retratando o falar sertanejo.
Como sempre acontece com a maioria dos grandes artistas, Catullo da Paixão Cearense morreu pobre em 10 de maio de 1946. Seus direitos autorais, possível e única fonte de renda, fora vendida a um amigo por preço irrisório. Findou seus dias morando numa casa de madeira no subúrbio carioca de Engenho de Dentro.
Catulo deixou inúmeras obras, tais como as músicas: “Canções Musicadas”, “Caboca Di Caxanga”, “Luar do Sertão”, “Choros ao Violão”, “Trovas e Canções”, “Cancioneiro Popular”, “A Canção do Africano”, “O Vagabundo”; os livros de poemas: “Meu Sertão”, “Sertão em Flor”, “Poemas Bravios”, “Poemas Escolhidos”, “O Milagre de São João”, “Mata Iluminada”; e as obras teatrais: “O Marroeiro”, “Flor da Santidade” e o clássico “Um Boêmio no Céu “.

Fonte: www.facom.ufba.br/pexsites/ musicanordestina