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A VIOLA MÁGICA DE HELENA MEIRELLES

por Terence Machado

Helena Meirelles está para o universo da música caipira, assim como Robert Johnson para o blues. Só que, ao contrário do norte-americano que teve o talento reconhecido desde cedo, a violeira do Mato Grosso do Sul, caiu nas graças da mídia e do público, em geral, beirando os 69 anos de idade. Isto porque o sobrinho - Mário Araújo, outro músico da família resolveu mandar uma carta e uma fita cassete com três músicas da tia para o editor da conceituada revista Guitar Player. Dois meses depois, lá estava tia Helena como destaque da publicação, eleita artista do mês, em novembro de 1993. Antes do sucesso bater a porta, porém, a talentosa instrumentista levou uma vida, pode-se dizer: “casca grossa”. A começar pela data de nascimento, a sexta-feira treze do mês de agosto de 1924.

Filha do seu Ovídio Pereira da Silva e da dona Ramona Vaz Meirelles, ela nasceu na propriedade do avô, a fazenda Jararaca, no pantanal mato-grossense. Criada em meio a peões, comitivas e violeiros, Helena tomou gosto pela música, desde cedo, vendo meio de quebrada o tio Leôncio e o irmão Aldo tocarem em reuniões com outros domadores de violas e violões, observando aquele ninho musical a certa distância, já que tocar o instrumento não era coisa pra moça de família; com muita curiosidade e admiração, embrenhou-se mato adentro pra aprender sozinha a tirar som daquele troço.
Até que, lá pelos idos de 32, a moleca pegou o tio de surpresa, quando pediu para acompanhá-lo ao violão. Atônito, ele aceitou o “desafio”, mas lançou um novo dizendo que ela iria apanhar se não desse conta do recado. Helena o acompanhou e, pra poder solar, ainda pediu a Leôncio que segurasse a base. Dos nove anos em diante, a tocadora da Jararaca passou a animar bailes e festas nas terras da família e arredores, enchendo os olhos e ouvidos de boiadeiros e gente da roça.

De novo, e não por acaso, cabe o paralelo de Helena Meirelles com o bluesman Robert Johnson. São vários os traços comuns na história dessas duas lendas da música de raiz (cada qual com a sua), além do talento de ambos. Reza a lenda que ele vendeu a alma ao diabo pra poder tocar acima do bem. Por ser um mestre do seu instrumento, conquistou várias amantes e teria sido envenenado por um dos maridos de quem roubara a mulher. Ao sul do equador e do Mato Grosso, a nossa Helena não precisou negociar com o “coisa ruim” pra receber, em troca, a habilidade no dedilhar das 6, 8, 10, e 12 cordas. Mas “comeu o pão que o diabo amassou”!

Teve três maridos e diversos amantes. Casou-se pela primeira vez aos 17 anos. Desta união, vieram três dos onze filhos que pariu, com um pequeno detalhe: ela própria fez, sozinha, todos os seus partos. A primeira separação também foi precoce, aos 21 anos. E, se o cabra macho que apareceu primeiro na reta da moça quis “colocar-lhe cabresto” e acabar com suas farras de viola, o segundo, que era músico, partiu pra traição, cortando-lhe pela raiz o acatamento. As honras de família Helena deixou pra trás, indo viver em bordéis como “mulher da vida”, às voltas com muita bebida e amores incertos. Todavia, acabou acertando num deles, ao dormir com um sujeito, chamado Constantino, que colocava até burro bravo nos eixos. Aceito como terceiro marido, virou companheiro fiel, desde então. E lá se vão mais de três décadas...

Após trinta e dois anos descompassados e longe dos parentes (eles chegaram a pensar que ela tivesse sido assassinada), a talentosa violeira ressurgiu, na pequena cidade paulista de Piquerobí, próxima à divisa com o Mato Grosso do Sul. Pobre, com a saúde aos cacos, mas a aptidão musical ilesa, foi encontrada pela prima Natália. Passada a “tempestade” e os tempos difíceis - a barra era tão brava que, certa vez no faroeste caboclo, um tiro disparado por algum macho desguaritado furou o tampo do seu instrumento, Helena resolveu abandonar o álcool e o hábito de mascar fumo, vícios que alimentou por quarenta anos.  

Na encruzilhada, ela parece ter escolhido o caminho mais longo e árduo para o sucesso do que o mestre do blues. Em compensação, ganhou sobrevida. Como ironia, talvez do destino, o reconhecimento pelo seu trabalho veio, que nem estouro de boiada, lá da terra do hôme (EUA). Matreira desde cedo, ao invés de fazer parceria com quem não devia, afastou os maus presságios confeccionando sua palheta de chifre de boi sob uma figueira, às sextas-feiras santas.

Êta mulher danada essa tar de Helena!

Discografia:
· Helena Meirelles (1994) - Eldorado
· Flor da Guavira (1996) - Eldorado
· Raiz Pantaneira (1997) - Eldorado

· Helena Meirelles ao vivo de volta ao Pantanal (2003) - Unimar Music

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