CAÇADORES DE VIOLAS
por Pinho
Recebi um telefonema de um violeiro apaixonado por viola. Depois do que ele me contou, percebi que era realmente um apaixonado por violas, pois foi logo dizendo da coleção com mais de sessenta preciosidades, colhidas pelos sertões das gerais, garimpadas tal pedras preciosas, entre essa gente simples dos ermos do nosso estado. Fomos, o Leonardo e eu, conhecer esse compadre, Cláudio Alexandrino, que nos recebeu em sua casa, coladinha com a igrejinha do Rosário, em Betim-MG.
Estavam ele, a namorada, o pai, o irmão, mais seus companheiros de cantoria, a turma dos "Violeiros de Betim", gente muito boa, da melhor espécie. Bom, fomos nos apresentando e logo apresentados à famosa coleção - meus olhos encheram d´água com a visão privilegiada - vinte e cinco violas, sendo algumas com mais de cem anos de idade, e quase todas em perfeito estado de conservação.
A recepção não poderia ter sido melhor, com direito a cantoria acompanhada de suco com pão de queijo feito na hora e causos e mais causos. Cláudio nos contou de como adquiriu suas violas, sendo que, para cada uma delas, uma história mais rica e curiosa. Ele costuma viajar em companhia da namorada, Elisana Assis e de seu irmão, Marcelo Alexandrino, à procura de sua gemas.
E foi nessas viagens que surgiu a vontade de estar escrevendo sobre os acontecidos, registrando os momentos e pessoas com quem eles se relacionaram, enquanto descobriam uma Minas Gerais ainda mais rica e original. Olha só o que vem...
DESBRAVANDO O NORTE MINEIRO
por Elisana Assis
Saímos de Betim às 5:30h do dia 18/01/03, sábado
A primeira cidade que passamos foi Augusto de Lima. Achamos uma viola Queluz original, na região do Poção, mas esta o dono, Seu Raimundo de Souza, 71 anos, não vendia. Feita em Conselheiro Lafaiete e com o estojo original, foi comprada de segunda mão, em 1924, por sua mãe. Percorremos aproximadamente dez quilômetros de estrada de terra para chegar até sua fazenda.
Curiosidades ouvidas por lá:
. O marido da Dona Nicinha, um folião daquelas bandas, quando bebe fica tentando vender a esposa por dez reais, aos seus amigos foliões;
. O dono de uma viola Queluz, igual a do Seu Raimundo, enjeitou um lote e um novilho em troca da mesma.
Na cidade de Buenópolis encontramos o Seu Morilo (paulista), dono de um bar no bairro Nova Floresta, que possui uma viola Xadrez. Ele toca na afinação Cebolão com alguns ponteios bem diferentes.
Passamos em Bocaiúva para almoçar (restaurante Fogão de Lenha) e abastecer o carro.
Chegamos a Montes Claros às 17:00h e fomos a procura de um hotel para passar a noite. No dia seguinte (19/01, domingo), fomos até o bairro Malhada dos Santos Reis à procura de Seu Alcides, onde encontramos e compramos uma rabeca, fabricada pelo prórprio Alcides em 1975. Ali encontramos também o Seu Otacílio, que nos levou até a casa de seu vizinho, dono uma rabeca com tarraxa, que pertencia ao sogro Joaquim José Lopes. Compramos mais essa.
Fomos também ao bairro Eldorado, onde conhecemos o Seu João Teodoro (folião), que nos informou de duas violas feitas em Ermidinha. Ficamos conhecendo o Seu Raimundo, que se diz fabricante de viola modelo "Zé Coco" (pedia 800,00, mas num valia 100,00).
No mesmo dia ficamos conhecendo a Dona Luíza Rodrigues, filha do Zé Coco do Riachão - falecido fabricante de violas e rabecas e excelente tocador, foi considerado o "Beethoven do Sertão", por um jornal da Alemanha. Dona Luíza nos mostrou os instrumentos que seu pai tocava e tocou na sanfona que também pertenceu a ele. Contou um pouco da história e da trajetória do Zé Coco do Riachão.
Após a visita à Dona Luíza, fomos à procura de mais um folião, o Seu Zezinho, funcionário da Copasa, que nos levou até a casa do Seu Benjamim, mestre de folia e tocador de viola, possuidor de uma viola "Tranqüilo Giannini", que nos informou sobre o Seu Zezão, dono de uma viola Queluz. Fomos até sua casa, porém não houve negócio. Nos levou, juntamente com o Seu Zezinho até a casa do Seu Veríssimo, no bairro Alterosa, fabricante de violas. Porém o modelo não era a Queluz.
Saída de Montes Claros para São Francisco, dia 20/01, às 9:00h
A primeira parada foi em Ermidinha (distrito de Montes Claros), a procura do fabricante das famosas violas. Ficamos conhecendo o Seu Alexandre que, por coincidência, havia encomendado uma viola para o seu genro, que mora em Betim, nos levando até o fabricante Manoel Soares Ferreira, o Seu Barrinha, morador da região de Riachão. Lá também conhecemos um folião da região, o Seu João, que possui uma viola fabricada pelo Seu Enriquinho (já falecido), e reformada pelo próprio Barrinha. Após conhecermos o Seu Barrinha e tendo visto a situação precária em que vive e o seu trabalho, ficamos impressionados com a qualidade dos seus instrumentos. Encomendamos duas violas e uma rabeca.
Seguindo viagem paramos em Mirabela, almoçamos e ficamos conhecendo o hospital das selas e sofás. Fomos à procura de Seu Silvino, que mora no bairro Bela Vista, fabricante de violas e folião. Não tinha nenhuma pronta, mas nos mostrou uma rabeca pintada de preto e com tarraxa de violão.
De passagem por Brasília de Minas deparamos com uma cavalgada de São Sebastião, com aproximadamente 3.000 cavaleiros, todos tajando blusas vermelhas.
Foi então que seguimos para São Francisco e paramos em Luislândia. Chegando na cidade ficamos conhecendo o Seu Firmino, mestre de folia do único terno da cidade, que nos levou até o Seu Leopoldino Francisco Silva, que se dizia fabricante de violas. Fomos à sua antiga casa, na região da Lagoa, que pertence ao São Francisco. Percorremos aproximadamente dez quilômetros de estrada de chão e uns dois andando pelo pasto até chegar a uma cazinha de pau à pique no meio do nada. Ali encontramos três violas, sendo uma sem cavalete, uma inacabada e uma completa, uma cabaça de água e uma caixa de folia, que fomos logo comprando por cinqüenta reais.
Ainda em Luislândia fomos atrás de Seu Francisco (conhecido por Nêgo), dono de uma rabeca. Chegamos a casa do Seu Nêgo às 20:00h, onde fomos muito bem recebidos por seus familiares, com biscoitos de polvilho, bolo com queijo, café e licor de pequi. Seu Nêgo tocou algumas melodias antigas em sua velha rabeca e improvisou com o Cláudio o clássico "Chico Mineiro", fazendo um belo dueto entre a rabeca e a viola. Seu Nêgo não quis desfazer de sua rabeca, porém nos ofereceu uma outra (de cocho), que ele mesmo havia fabricado, por cinqüenta reais, que após uma prévia negociação conseguimos levá-la por vinte. Saímos da casa do Seu Nêgo às 23:00h com destino a São Francisco, onde chegamos por volta da meia-noite.
Curiosidade: Um trajeto que faríamos em três horas, levamos quinze.
No dia seguinte, já em São Francisco (21/01, terça-feira), fomos à procura de mais violas. À beira do Velho Chico tivemos informação de uma viola, no bairro Bandeirantes, na casa do Seu Nêgo Venâncio, fabricante de violas. Fomos até o endereço daquele senhor e adquirimos duas violas: uma fabricada por ele mesmo, mode Queluz e uma outra Queluz original com o selo da "Casa Salgado", de Conselheiro Lafaiete, ambas por cem reais.
Curiosidade: a viola fabricada pelo Seu Nêgo Venâncio está no livro "Tocadores", de Roberto Corrêa.
Posteriormente fomos ao bairro Bandeirantes à procura de outra viola, em um armazém do Seu Eupides de Cornel, que fora fabricada pelo Seu Minervino do Fura Carro. Tratava de uma viola modelo Queluz, porém no lugar das cravelhas de madeira, estava preparada para o uso de tarraxas. Compramos por cinqüenta reais.
Curiosidade: ao chegar ao armazém do Seu Eupides, uma senhora que ali se encontrava disse não haver nenhuma viola, mas sim um cavaquinho dentro de um saco de linhagem, encostado na parede próximo à porta de entrada. Quando fomos conferir, encontramos aquela raridade.
Deixamos São Francisco com destino a Capitão Enéas. Saímos às 16:05h e chegamos às 19:30h.
No dia 22/01 (quarta-feira), saímos com destino a Caçarema (distrito de Capitão Enéas), passando em São Geraldo (distrito de francisco Sá), onde conhecemos mais um fabricante de violas de nome Leonel, que fabricava viola caipira por duzentos reais, modelo Queluz por quatrocentos e rabeca por cento e cinqüenta. Passamos por Quem Quem (distrito de Janaúba) até chegar em Caçarema. Encontramos uma viola Del Vecchio nova, duas Tonantes e uma Tranqüilo Giannini quebrada. Não compramos nenhuma.
No dia 23/01, em Caçarema, na parte da manhã, nos reunimos na calçada e fizemos uma roda de viola. Após o almoço, na casa da Marli e com mais um integrante da nossa equipe (Evandro, primo do Cláudio), seguimos para São João da Ponte, onde compramos mais uma viola (Giannini) por trinta reais que pertencia ao Seu Xisto do "Bar da Cabaça".
De São João da Ponte, em companhia do Seu José Ferreira, fomos para Tamboril, onde encontramos um grande violeiro por nome Toni, que toca várias afinações (paraguaçu, oitavada, canhotinha, vencedora, meia-guitarra e cebolão).
Curiosidade: o violeiro Toni trabalha de pedreiro e virá trabalhar em Betim.
Saímos de Capitão Enéas dia 24/01, às 9:50h, passamos em Montes Claros para nos despedir da Dona Luíza e seguimos para Betim, onde chegamos às 20:45h.
Esta foi a nossa melhor caçada: nossos troféus foram sete violas, três rabecas, uma cabaça, uma caixa de folia, conhecimento, amor e muita paz.
E que essa seja a primeira de muitas outras.
Caçadores de violas: Cláudio Alexandrino, Elisana Assis e Marcelo Alexandrino
CAÇADORES DE VIOLAS (2)
PERCORRENDO O LEITO DE UM RIO CHAMADO CIPÓ
por Cláudio Alexandrino e Elisana de Assis
Em uma manhã de Domingo, às 07:49h do dia 27/07/03. Com um sol de inverno, saímos logo cedo para percorrer o leito de um rio chamado Cipó. Fomos em busca de uma viola Queluz que estaria guardada dentro de uma tulha, embrulhada em um saco de linhagem, em algum lugar, em alguma grota nas margens do rio, segundo me disseram.
Pegamos uma estrada que um dia já foi Real e hoje guarda histórias e contos de um estado brasileiro onde o ouro foi seu celeiro, onde os contos, as folias e as cantigas de um povo retratam o sofrimento e as alegrias de ser brasileiro. Minas tem muitas estórias para contar.
Flores lilás do Ipê enfeitam a nossa passagem, esparramadas pela estrada como um tapete colorido. Um jacarandá sombreia um vendedor de abacaxi e outro dá nome a uma venda. Lapinha ficou para trás. O Rio das Velhas nos acompanha com um destino certo, vai ao encontro do velho Chico em busca do mar.
De longe avistamos a serra, azul de tão longe. Ao chegarmos perto parecia ondas verdes de papel de seda amassados pelo o tempo, descendo e subindo em direção ao céu.
Saímos da estrada Real e nos confrontamos com a realidade dos ribeirinhos que vivem às margens do rio Cipó, na simplicidade estampada em seus rostos, na pobreza de um lugar primitivo, mas com a alegria de ser um caipira nato.
Às 11:04h chegamos na casa do Seu Raimundo e foi uma frustração geral: ele tinha ido para Santana do Riacho, então fomos ao seu encalço. A caminho de Santana paramos na casa do Seu Oswaldo Fernandes Santos, região do Buracão.
Curiosidades:
Conversando com ele ficamos sabendo que a sua avó se chamava Maria Buracoa, daí a origem do nome "Buracão".
Em sua casa ouvimos o canto de um "João Véio" (também conhecido por Trinca-Ferro) pois, Seu Oswaldo sempre coloca “frutia” pra eles.”
O Seu Oswaldo nos indicou o Seu João da Mata que tinha uma viola de cinco furos e às 12:22h chegamos em sua residência em Mangabeiras, distrito de Santana do Riacho, no sítio Três Oitavos. Ele chorou quando viu o filho tirar a caixa debaixo da cama e que continha a viola de cinco furos: decerto pensou que iam vendê-la - Seu João sofreu um derrame cerebral no mês de maio e quase não se levanta mais -, mas ficou muito feliz com a nossa presença. Pedimos à sua esposa para tirarmos algumas fotos dele com a viola em frente a casa. Os filhos o carregaram para fora e colocaram-no em um sofá para as fotos.
Ele até que pelejou com a viola, porém suas mãos não tinham controle e não tocavam as cordas. Toda a família ficou espantada de como ele estava alegre, lembrando de quando tocava na "guarda de congado de Mangabeira". Dali saimos com destino a Santana do Riacho.
Chegamos em Santana do Riacho às 13:20h e encontramos o Seu Geraldo da Cuia, que é um grande amigo e que nos indicou uma viola em Baldim.
Curiosidade:
“Compramos duas lamparinas em uma venda, na praça de Santana do Riacho.”
Saímos de Santana do Riacho em direção a Baldim. Para trás ficou a serra, ninguém quis desfazer de suas relíquias. No caminho vários gravetos caídos, quem sabe de um caminhão de lenha que ali passou. Em Baldim fomos a procura do Seu Mozart, mais conhecido como "Soím". Ele trabalha como vigilante de uma boite, é músico e pertence a um terno de folia da cidade, mas tinha ido fazer um show em Sete Lagoas.
Após percorrer aproximadamente cento e oitenta quilômetros, saímos de Baldim às 15:00h com destino a nossa casa, em Betim-MG, com a cabeça baixa e sem ter cumprido o nosso objetivo que seria a compra de uma viola do modelo Queluz.
Obs.: Quinze dias depois retornamos a "boite", em Baldim, e adquirimos uma viola modelo Queluz fabricada pelo falecido Raimundo Gonçalves e que pertencia ao Seu João de Souza.
Caçadores de viola: Cláudio Alexandrino, Elisana de Assis e Marcelo Alexandrino
Nossa caçada continua...
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