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A VIOLA NA FOLIA DE REIS

”Se a Folia tiver viola ninguém consegue atrapalhá-la, pois foi São José quem a fez e São Gonçalo quem a tocou” (Odorino Azelino de Siqueira)

por Geovana Jardim

Desde os primórdios do cristianismo comemora-se o nascimento de Jesus. O Papa Júlio I em 376 fixou a data de vinte e cinco de dezembro na comemoração da natividade. A festa que celebra a manifestação da divindade de Cristo, o dia da adoração dos Reis, foi fixada seis de janeiro. Com origem nas encenações de natal, em folguedos populares na Espanha, as Folias de Reis, manifestações de cunho religioso, foram introduzidas no Brasil através da colonização portuguesa em meados do século XVIII, e comemoram tanto a Natividade quanto a Epifania, festa coletiva de vários fatos da vida de Jesus.
Inicia-se na noite de vinte e quatro de dezembro indo até seis de janeiro, algumas se estendem até o dia vinte, por influência de devoção a São Sebastião. Os grupos saem cantando e louvando o nascimento do menino Deus. Os foliões de Reis representam a caravana dos Reis Magos do Oriente que seguindo a estrela guia foram ao encontro da lapa de Belém.
Pesquisadores e folcloristas afirmam que no Brasil as folias ganharam características próprias guardadas a cada região, mas é comum a todas o profundo sentimento de fé cristã no Deus que se fez carne.
...Quando os três reis magos estavam adorando o menino Jesus, foram alertados, por um anjo, em sonho, que retornassem às suas terras por outros caminhos, pois o rei Herodes estava à espera deles para saber notícias sobre o Deus menino. Baltasar, Gaspar e Belchior arrumaram máscaras, viola, pandeiro e caixa e voltaram cantando e glorificando o nascimento do Salvador...
A tradição da Folia de Reis surgiu assim, segundo José Darci Justiniano de Carvalho, Zé Goiano, presidente da Federação das Folias de Reis do Estado de Minas Gerais e violeiro do terno (grupo) de folia “Os Conterrâneos”. Nascido em Piedade dos Gerais, cresceu vendo o pai e os irmãos participarem da folia. Começou tocando cavaquinho, mas foi sozinho, vendo e ouvindo, que veio a tocar viola, instrumento, segundo ele, de grande importância na execução de uma folia.
De uma região para outra a folia tem alterações, porém seguem a mesma linha. Um grupo de folia é chamado de terno e cada região dá o nome que achar interessante, mas quase sempre leva o nome do mestre da folia da região. No norte de Minas o Terno de Folia não tem nome artístico, como por exemplo, a Folia de Alto Belo, da qual faz parte o pesquisador e compositor Téo Azevedo, tem o nome de "Terno de Reis de Alto Belo".
Existem outros tipos de folias como a do Divino Espírito Santo, de Nossa Senhora do Rosário, de São Miguel, de São Geraldo, Santo Antônio, São Gonçalo, São Sebastião, Santa Luzia, Santa Terezinha, entre outras.
Muitas vezes entender o funcionamento da Folia de Reis sem estar presente é difícil. Téo Azevedo, a partir de suas pesquisas de mais de vinte anos, no Norte de Minas, descreve a seguir um segmento de Terno de Reis da região de Alto Belo  Minas Gerais, talvez assim a compreensão passe a ser simples. Um Terno de Folia de Reis tem quatro cantos principais e originais e cada canto tem que ter no mínimo seis estrofes de quadras ou sextilhas da linha de sete sílabas, rimando sempre os versos pares. A primeira obrigação do Terno de Folia é visitar a Igreja (Casa de Deus), e cantar à meia-noite, no dia vinte e quatro de dezembro, o canto especial de saudação à Igreja ("Deus te salve Casa Santa"). De frente para o presépio ou altar. Antes do canto, porém, fazer o sinal da cruz e ajoelhar. Assim que terminar esta parte, canta-se a despedida e o Terno deve sair pelo mesmo local que entrou. Em seguida, de casa em casa, canta-se o Canto da Porta, que é para despertar e saudar os donos da casa. A folia ao entrar na casa dirige-se à frente do presépio, gruta ou lapinha. Todos os foliões devem se ajoelhar, depois levantar e cantar a saudação ao presépio. A seguir o Terno de Folia e todo o povo presente se descontrai, no momento é servido comida e bebida, esta é a parte profana da festa, todos dançam e cantam alegremente com o toque e a Dança do Lundu, do Guaiano. Após o Guaiano, pode-se brincar o Calango em versos improvisados. Os Foliões tiravam um refrão qualquer de Calango e pediam ao povo para cantar junto. O Canto de despedida marca o final da apresentação da Folia na casa.
Um mantenedor e divulgador desta tradição é o Seu Nelson Jacó, violeiro e folião na cidade mineira de Jequitibá. Ele começou na folia batendo caixa, mas, por gostar da viola, aprendeu a tocá-la e diz que o instrumento não tem nenhum segredo. Segundo Seu Nelson pode ter até três violas na folia, mas com a adaptação de novos instrumentos como cavaquinho, pandeiro e acordeon, na celebração, duas violas é a quantidade certa. De acordo com o Mestre Seu Nelson Jacó, para o folião a viola é uma alma sagrada, a alma da música, e não pode ser esquecida. "... é um alívio ver o pessoal tocando direitinho com aquela animação que agente vê que não vai acabar nunca. Vai ser a coisa do passado, do presente e do futuro", afirma.
Passagens bíblicas, após serem rimadas, viram versos para os cantos da Folia. Mas estes, não tem apenas cunho religioso, podem ser compostos com temas diversificados. Com toda a sua ciência o Mestre Seu Nelson Jacó mostra um verso que compôs em homenagem ao Projeto Manuelzão, como exemplo:

"...Operário e operárias
do Projeto Manuelzão
Jesus Cristo lhes abençoe
E a Virgem da Conceição."

Mas ele dá um conselho na hora de criar uma rima: "...se ficar só cantando, sem pensar no final, pode sair do ritmo, aí o caso fica mal contado. A gente começa contando caso de boi e depois passa para bicicleta...".
É clara a importância da viola na folia o violeiro torna-se parte fundamental nesta representação. Para Odorino Azelino de Siqueira, embaixador do terno de Folia Família Unida de Igarapé, folião há mais de 45 anos, a viola é o primeiro instrumento da Folia e completa: "...se a Folia tiver viola ninguém consegue atrapalhá-la, pois foi São José quem a fez e São Gonçalo quem a tocou...".
Alguns músicos têm em seu trabalho grandes influências das manifestações culturais populares, inclusive das Folias de Reis. O violeiro e pesquisador de cultura popular Chico Lobo fala da sua experiência profissional, que sofre influência das suas pesquisas. "O fato de na minha infância o meu pai receber a Folia de Reis, que me despertou para a viola caipira, eu fiquei apaixonado pelo som de uma viola meia regra, cravelha de madeira, que estava nas mãos do mestre. Este foi o impacto para eu reconhecer o som da viola. Quando comecei a tocar viola na juventude, influenciado pelas folias e também pelas duplas caipiras ouvidas no rádio e pelo violeiro Renato Andrade, que conheci no início dos anos oitenta em São João Del Rei, a folia sempre foi um motivo de pesquisa, de convivência com os mestres e uma grande escola para eu aprofundar nos toques de viola. Muitas das minhas composições são marcadas por uma forte influência da cultura de devoção a Santos Reis".
De acordo com Chico Lobo a Folia de Reis, como diversas manifestações de cunho religioso teve, tem e terá sempre uma importância primordial na preservação de hábitos e costumes.
O fato da viola ser o instrumento principal da folia, que está nas mãos do mestre que canta os versos sagrados, fez com que em muitas partes ela fosse preservada graças a esta condição, graças ao fato de que ela é importante nas mãos do mestre. Em muitos interiores do Brasil a viola e seus toques "maviosos" são passados de geração em geração por causa da funcionalidade que ela tem na comunidade, que está inserida. Enquanto existir uma folia sempre existirá a viola, enquanto existir a viola sempre existirá uma folia, um pagamento de promessa, uma reza, uma festa nas cordas da viola.
Existem artistas compromissados com uma pesquisa séria da cultura popular, que registram as Folias de Reis. O percussionista e pesquisador Carlinhos Ferreira é um bom exemplo. Há mais ou menos dez anos faz os registros nos locais das folias convivendo com os mestres, o que garante uma credibilidade no conteúdo. Quando faz estas gravações Carlinhos Ferreira diz fotografar a música para registrá-la naquele momento, pois com o tempo ela vai mudando, e o seu intuito é acompanhar a sua evolução com o passar do tempo.
Ao realizar este trabalho o músico não tem a intenção de lançá-lo como produto fonográfico, apesar das cobranças que são muitas. Ele prefere utilizá-lo no seu trabalho musical. Carlinhos Ferreira acredita que a melhor forma de entender uma folia é estar presente. "Acompanhar uma folia e compreendê-la é um sentimento singular".


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