A DANÇA DE SÃO GONÇALO
Recordações do passado transportam minha memória a uma infância prazerosa, durante as férias do meio do ano onde em pleno arraial do antigo "Régio", nos idos da década de trinta, em São José dos Campos-SP. Em noite de lua cheia, boquiaberto assistia os violeiros, de viola a tiracolo, calçados de botinas amarelas, outras pretas, a encabeçar as filas da procissão de louvor a São Gonçalo, o protetor do sertanejo, roceiro no bom sentido e tocador de viola, alegria do povoado.
Para ilustrar melhor os louvores a São Gonçalo prestados pelos tocadores de viola na procissão, valho-me do conto de autoria do escritor Antônio de Alcântara Machado, que em palavras próprias do vocabulário caipira, descreve com maestria a "Dança de São Gonçalo"
por Nelson José Lombardi
"Atmosfera de cauda de procissão. Bodum. Os homens formam duas filas diante do altar de São Gonçalo. São Gonçalo está enfaixado como um recém-nascido. Azul. Branco. Entre palmas de São José. Estrelas no céu de papel de seda.
Os violeiros, encabeçando as filas, puxando a reza, fazem reverências. Viram-se para os outros. E os outros dançam com eles. Bate-pé no chão de terra socada: Pan-pan-pan-pan! Pan-pan! Pan-pan-pan! Pan! Param. De repente. Inesperadamente. Pra bater palmas: Plá-plá-plá! Plá-plá! Plá! Plá-plá-plá! Plá-plá! Param. Para os violeiros cantarem, viola no queixo:
"É este o primeiro velso
qu´eu canto pra São Gonçalo..."
- Senta aí mesmo no chão, Benedito!
"É este o primeiro velso
qu´eu canto pra São Gonçalo..."
E o coro começa grosso, grosso. Rola, subindo. Desce, fino, fino. Mistura-se. Prolonga-se Ôôôô! Aaaa! Ôaaôh! Ôaiiiiiiih! Um guincho.
O violeiro de olhos apertados saúda o companheiro. E marcha, seguido pela fila. Dá uma volta. Reverências para cá. Reverências para lá. Tudo sério. Volta para o seu lugar.
- Entra, seu Casimiro!
O japonês Kashamira entra com a mulher e o filhinho brasileiro de roupa de brim. Inclina a cabeça diante de São Gonçalo. Acocora-se. O acompanhamento das violas, feito de três compassos, não cansa. Os assistentes enchem os cantos sombreados. No centro da sala de vinte metros quadrados, a lâmpada de azeite se agita.
"Minha boca está cantando,
meu coração lhe adorando!"
Cabeças mulatas espiam pelas janelas. A porta é um monte de gente. A dona da casa, desdentada, recebe convidados.
- Não vê que meu defunto, seu Vieira, tá enterrado já faiz dois ano...Fazia mesmo dois ano agora no Natar...
(Pan-pan-pan!Pan-pan!Pan!)
- Eu antão quis fazê esta oração pra São Gonçalo deixá ele entrá...
"Vou mandá fazê um barquinho
da raiz do alecrim..."
O menino de oito anos aumenta a fila da direita. A folhinha da parede é do Empório Itália-Brasil. Garibaldi tem uma bandeirinha no peito e ergue bem alto a espada.
"Pra embarcá meu São Gonçalo
do promá pra seu jardim."
Desafinação sublime do coro. Os rezadores movimentam-se. Trocam de posição. Enfrentam-se. Dois a dois avançam, cumprimentam à esquerda, cumprimentam à direita, tocam-se ombro contra ombro, voltam para seu lugar. O negro de ala é o melhor dançarino da quadrilha religiosa.
"São Gonçalo é um bom santo
por livrá seu pai da forca."
A noite cerca de escuridão a casinha de barro. Cigarros acesos são riscos de fogo nas mãos inquietas.
A dona da casa é viúva de um português. E amiga de um negro.
- Não vê que o Crispim também pegô a doença danada... Num havia jeito de sará... O coitado quis até se enforcá num pé de bananêra!
"Artá de São Gonçalo,
artá de nossa oração!"
- Nóis antão, fizemo uma premessa. Que se Crispim sarasse, nóis fazia esta festa.
"Foi promessa que sarando será seu precuradô!"
A cabocla trata de salvar a alma do morto e o corpo do vivo. A filha bonitinha sorri, enleada. As violas têm um som, um som só. Chega gente.
"São Gonçalo tava longe,
de longe já tá bem perto..."
Um a um, curvam-se diante do altar. Gingam. O violeiro de olhos apertados está de sobretudo. Negros de pé no chão.
- Nóis tamo mesmo emprestado neste mundo...
Cantando, andam pela salinha quente.
"Abençoado seja a mão
que enfeitô este oratório!"
O preto de pala dá um tropicão engraçado. E a mulher de azul celeste ri, amamentando o filho. Mas os violeiros esganiçam:
"da dança de São Gonçalo ninguém deve caçoá. (Ôôôô! Aaaaah! Iiiiiiih!) São Gonçalo é vingativo, ele pode castigá!"
Silêncio na assitência descalça. As bandeirinhas desenham um X de papel sobre as cabeças dos dançarinos. Atrás da casa, tem cachaça do Corisco.
- Depois, é a veis das moça. Quem quisé pode pegá o São Gonçalo e dançá com ele encostado no lugar doente.
"Onde chega os pecadô,
ajoelhai, pedi perdão!"
O estouro dos foguetes ronca no vale estreito. São fagulhas os vagalumes. De uma fogueira que não se vê. Lá dentro, o mesmo ritmo. Faz já uma hora monótona.
"São Gonçalo está sentado
com uma fita na cintura."
O caboclo louro usa da faca e esgravata o dedo do pé.
- São seis reza de hora e meia, mais ou meno... Pro santo ficá sastifeito.
"Lá no céu será enfeitado
p´la mão de Nossa Senhora!
(Pan-pan-pan-pan! Pan-pan!
Plá-plá-plá-plá! Plá!
Plá-plá-plá-plá!)
Oratório tão bonito
cuma luz a alumiá!"
Do alto do montão de lenha, a gente vê, no fundo. São Paulo estirado. Todo aceso. Do outro lado, a Serra da Cantareira não deixa a vista passar. Nosso céu tem mais estrelas.
"São Gonçalo foi em Roma
visitá Nosso Sinhô!"
- Só acaba amanhã, sim sinhô! Vai até o meio-dia, sim sinhô! E acaba tudo ajoeiado.
Ôôôô! Aaaaah! Ôaôôaaaôh! Ôôôiiiiih! Parece um órgão, no princípio. Cantochão. No fim, é um carro-de-boi.
"Senhora de Deus convelso
Padre, Filho, Esprito Santo!"
Quem guincha é o caipira de bigodes exagerados.
Nelson José Lombardi é membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais.
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