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O TOQUE DO BERRANTE

O berrante é um instrumento feito de chifre de boi com detalhes em couro. Utilizado pelos peões de boiadeiro, cada toque é uma senha avisando a hora do almoço, a hora de recolher, situação de perigo e orienta o “sinueiro”, boi treinado que comanda a boiada...

por Maria Carolina Coelho

O Berrante é um instrumento de sopro de difícil execução, feito de chifre de boi e detalhes em couro, que emite sons agudos e graves, porém aveludados. O berrante é contagiante, emociona e conquista corações, religiões, rádios, TVs, jornais, cavalgadas e missas sertanejas.
Ele surgiu há mais de três séculos, juntamente com o tropeirismo, e é por esse motivo que é tão difícil desassociar um do outro.
Os primeiros berrantes tinham como único objetivo agrupar os animais. Tocados pelos peões nas antigas comitivas que transportavam boiadas, seu toque chama e comanda o gado para arrebanhar, descansar, "posá no maiadô" e seguir viagem.
Esses berrantes eram feitos do chifre do boi pedreiro e chegavam a medir mais de um metro.
Com o passar do tempo surgiu o berrante com anel de prata, cuja finalidade era chamar o gado para dar sal, fazer transporte ou avisar que a bóia estava pronta.
A grande importância do berrante em fazendas é devido à distância que o som alcança: no silêncio do sertão, pode ser ouvido a 3 km.
Hoje, embora nem tanto utilizado para esta finalidade, o berrante ainda encanta turistas e visitantes das festas populares.
Berranteiro é quem toca berrante. Ele vai a frente da boiada, junto com o guia. Conseguir tirar um belo som do berrante exige muita habilidade. O berranteiro experiente consegue atingir um som que se assemelha a um longo “pluuummm”. Caso o som seja um “fuuufuuu” é sinal de que o berrante está sendo mal tocado. Alguns berranteiros conseguem executar trechos de músicas em seus instrumentos como o “Hino Nacional Brasileiro”.
Embora seja um instrumento característico de Goiás, Triângulo Mineiro e Mato Grosso, encontramos esse instrumento entre os camponeses do Minho, em Portugal. Observa-se que, a maioria dos colonizadores portugueses que vieram para Goiás, eram originários dessa região. Há também um instrumento semelhante entre os árabes.
Como acontece com vários objetos da nossa cultura, de acordo com a região do Brasil, o berrante recebe um nome: binga, guampo, ou buzina.
Devido a grande dificuldade de execução do berrante, a “Festa do Peão de Barretos”, a principal do país, resolveu premiar os melhores berranteiros. Anualmente é realizado o “Concurso do Berrante”, que elege e homenageia os melhores berranteiros do país. Durante uma hora, são classificados em média 15 pessoas para participar da final

CARACTERÍSTICAS DO BERRANTE

Presente na nossa história e cultura há mais de três séculos, o berrante foi acumulando lendas e características especiais: sua ponta se chama bocal, e como existe apenas um lado certo para se tocar, há berrantes para destros e canhotos: o som deve ser limpo e ter sentimento.
O berrante carrega consigo um mistério: após ter sido tocado, os primeiros a se aproximarem são sempre “a mulher mais bonita, uma criança e um bêbado”.
Bodes, gatos e porcos são animais maléficos que não respondem ao toque do berrante, nem demonstram qualquer sentimento pelo instrumento. Todos os outros animais manifestam-se ao repique de um berrante.
O berrante não tem paleta, corda, nem teclado. A nota é dada na boca do berranteiro, que cria um estilo próprio, trazendo saudade, alegria, emoções e até mesmo lágrimas. Quanto menos se põe a boca no bocal, melhor é o som.
É comum dizer que o som do berrante cria uma certa mística.
Existem cinco toques principais no berrante:
. Saída, um toque sereno para despertar a boiada de manhã;
. Estradão, toque repicado que reanima a boiada na estrada;
. Rebatedouro, toque de aviso de perigo;
. Queima do alho, avisa os peões da hora do almoço; e
. Floreio, toque livre para divertimento.

ZÉ CAPETA, O BERRANTEIRO OFICIAL DO BRASIL

Zé Capeta, que recebeu dos “Independentes” o diploma de “Professor de Berrante”, está há mais de quatro décadas no rodeio e afirma que “pra ser peão, precisa ter opinião”.
“Zé capeta” foi o nome que ele escolheu ser chamado. Não fala a idade e conta que telefone e endereço são expressões fora de seu dicionário, já que está acostumado com a vida na estrada: “a família do peão é a estrada, a aposentadoria é a morte”, afirma ele.
Em tempos de modernidade, é difícil encontrar alguém que tenha tanto orgulho de sua profissão como Zé Capeta. Ele conta que a tradição do rodeio em circo precede o ano de 1957. “Eram espetáculos completos: tinham touradas, fantasmas, lobisomem e um cavalo famoso, que completava o show no final do espetáculo”.
Ninguém tem mais conhecimento e amor para falar do berrante que Zé Capeta: “O berrante é um símbolo do passado porque não tem mais boi na estrada, acabaram as grandes boiadas tocadas ao som do berrante” fala ele com saudosismo. Para Zé capeta o berrante é um “bálsamo para a alma”.

 

A DAMA DO BERRANTE

Jovem, inteligente e bonita, Daniele Ferreira dos Santos, a Dany Berranteira, é um exemplo de que a tradição continua viva

da Redação

Dany é bragantina de 22 anos e se destaca nas festas de peão de boiadeiro em que participa com seu berrante, ganhando concursos, tirando aplausos da multidão e o fôlego dos marmanjos com sua beleza e carisma.
Daniele Ferreira dos Santos, a Dany Berranteira,sonha em se formar em veterinária para cuidar dos animais de rua, mas por enquanto vai colecionando títulos como o que recebeu durante a Festa do Peão de Barretos, “A Dama do Berrante”. Dany venceu o primeiro concurso feminino de berrante no “Barreto´s Rodeo Festival”, o maior evento do gênero do país e um dos maiores do mundo.
Para vencer tinha que executar da melhor maneira possível os cinco principais toques, que são: “saída de pouso”, “toque do estradão”, “toque do almoço”, “toque do boi gordo” e “toque do estouro de boiada”. E ela fez melhor. Esse título foi apenas a confirmação do talento que Dany herdou do pai.
Seu pai, Valdomiro Pereira dos Santos, o “Bigode”, antigo ponteiro de boiada, foi quem ensinou os primeiros toques. A partir, daí Dany criou seu jeito próprio de executar o berrante, desenvolvendo outros 50 toques, os quais ela usa nos torneios ou para abrir as festas de peões, das quais orgulhosamente participa.
Dany conseguiu dar um toque feminino ao berrante - originalmente usado apenas por homens -, o qual ela transformou em um verdadeiro instrumento musical, chegando a tocar até o Hino Nacional.
Conhecida no meio, respeitada por berranteiros de todo o país, Dany já teve participações em vários shows de músicos consagrados, entre eles Sérgio Reis, cantor sertanejo e reconhecido berranteiro.
Apaixonada por cavalos, admira a cultura caipira e suas tradições como a viola caipira, instrumento com o qual já tem alguma intimidade. Ao lado de uma amiga formou a dupla “Dany e Caroline”, cantando apenas músicas de raiz.
Dany é “sangue novo na praça” preservando nossa cultura caipira.

 


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