O CONGADO
O Congado é considerado uma das expressões mais significativas do folclore mineiro. Ele foi trazido para o Brasil pelos negros africanos na época da escravatura, e recorda as cerimônias de coroação de antigos reis da África através de danças e cantigas.
por Juliana Pereira
A cerimônia de coroação dos reis negros tem uma forte ligação com a confraria de Nossa Senhora do Rosário. A santa foi introduzida no Congo por missionários da Igreja Católica antes da vinda de escravos para o Brasil. As primeiras confrarias do Rosário eram realizadas por negros de Angola, e a princípio, negros ou mulatos brasileiros: brancos não podiam participar das cerimônias. São Benedito e Santa Efigênia também são figuras importantes da história da celebração.
O Congado foi a primeira forma de participação dos negros na vida cultural da sociedade colonial. As danças e festas religiosas foram a maneira encontrada por eles de penetrar e fazer parte da estrutura social. Suas crenças e costumes trazidos da África eram disfarçados através do uso de rituais aparentemente inocentes, e figuras de santos católicos. Desta forma, eles conseguiam se reunir sem serem repreendidos pelos senhores.
Os grupos que integram o Congado são chamados de ternos ou guardas. As guardas se sub-dividem em Regência, Reinado e Diretoria. A Regência é o comando responsável pela parte artística. Na cerimônia é ela que possui o poder de fato. É composta por aproximadamente 40 pessoas. Dentre elas estão os capitães e os dançantes. O 1° Capitão dirige a guarda. O Reinado tem poder simbólico sobre a guarda. Sua função é a de “reinar” durante as festas, recebendo homenagens da guarda. Ele é composto por aproximadamente 20 pessoas, que são chamadas de cabeças coroadas. Seu principal membro é o Rei Congo, que tem a função de controlar o grupo. Por tradição, os cargos de Rei e Rainha Congo são hereditários, mas eles podem perder o cargo caso não sigam as práticas religiosas corretamente. A Diretoria é responsável pela parte administrativa do grupo, além de ter que promover a entidade, apoiar seus membros em dificuldade, programar as finanças e cuidar da documentação da instituição.
O Congado tem raízes africanas, mas o contato dos negros com a cultura brasileira possibilitou a união e criação de uma grande variedade de ritmos e expressões musicais que se tornaram parte da cerimônia. Podemos identificar o Candombe como sendo a primeira forma de expressão cultural do Congado. Já o Moçambique, o Marujo e o Congo surgiram posteriormente, como fruto da mistura afro-brasileira. A variedade de cantos e coreografias é grande, e os instrumentos usados nas diferentes expressões culturais também podem ser diferentes. O Congo usa caixas, violas, sanfonas, pandeiros e reco-recos. As violas são enfeitadas com fitas coloridas que pendem da sua extremidade mais fina. Seus toques podem ser mais lentos (marcha grave) ou mais acelerados (marcha picada). Já o Marujo usa o machite e tamborins, além dos instrumentos usados no Congo. Só as violas são enfeitadas, e a variedade rítmica é uma característica dominante na música. As cantigas do Congado trazem como temas tanto elementos histórico-culturais do negro, como sua religiosidade, trabalho e vida cotidiana. As estrofes podem ser longas, e dependendo da habilidade do capitão, podem ser feitas improvisações.
Por tradição, a festa deveria acontecer no dia sete de outubro, que é o dia de Nossa Senhora do Rosário. Mas com o passar do tempo, por motivos distintos, ela passou a ser móvel, podendo acontecer de agosto a outubro. Alguns dias antes da comemoração, o mastro com a bandeira que traz a estampa da santa é erguido em frente à igreja para que todos saibam que haverá festa. No dia da celebração a Guarda busca o reinado, os Reis brancos, os Reis do ano e os festeiros em suas residências, cantando, tocando e dançando. Todos se reúnem em frente à igreja fazendo exibições coreográficas e troca de cumprimentos. Um almoço é servido aos congadeiros como símbolo de comunhão e solidariedade. O Capitão abençoa os alimentos, e após o almoço e o descanso, os membros da celebração fazem outras exibições. À tarde uma missa é realizada com a coroação dos novos reis. Logo após, os participantes seguem em uma procissão que marca o encerramento da festa. Durante a procissão a guarda canta mas não toca seus instrumentos. Os congadeiros também rezam e entoam cantos religiosos e cantos específicos do Congado. O mastro é geralmente baixado no dia seguinte.
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