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O município de São Francisco tem tradição de fabricantes de violas, rabecas, caixas, balainhos e todo instrumental para folia. Não poderia ser diferente, considerando a grande vocação de nossa gente para a música e danças folclóricas, em especial os ternos de folias-de-reis, precisava mesmo de instrumentos em seu universo, permitindo a proliferação de grupos de foliões e de danças tantas.

O mais famoso e tradicional, de hoje, é o exímio Minervino Gonçalves Rodrigues Guimarães, podendo ser lembrado, ainda, Nego de Venância, um refinado artesão.
No dia de Bom Jesus da Lapa, do ano de 2000, na companhia de meu genro André Saraiva de Queiroz, viajei para o Angical, uma região das mais tradicionais e antigas do município de São Francisco. Depois de rodar uns bons minutos por uma bonita estrada, com várias fazendas fincadas em suas abas, chegamos a uma casinha de adobe, muito baixa e coberta com telha de amianto, numa pequena elevação acima da grota do Surucucu, num fim de uma trilha: era a casa de Minervino.

Ele esperava a visita e, assim, logo entramos no seu mundo de artesão: as toras de imburana vermelha para fazer o bojo das violas e rabecas; os sarrafos de jacarandá, cedro, candeio, para as peças especiais e os enfeites; a plaina de madeira que ele mesmo fez, o formão, o sarrafo e uns pedaços de plástico rígido branco, ferramentas e matéria prima para dar forma a instrumentos maravilhosos que nas mãos de exímios foliões dão vida aos diversos folguedos do meio rural, como se fossem mágicos de tão belos sons. Parte dos instrumentos estava num toco e outras numa banca velha fincada debaixo de um portentoso pé de xixá, todo desfolhado.

Ali começamos nossos mergulhos no mundo e modos do artesão. Ele começou falando sobre a fabricação da viola: ela, para ficar no ponto de ser repicada, leva de três a quatro dias de trabalho. A lateral do bojo é feita com talas serradas de toras bem sequinhas de imburana, delineia-se a curvatura do belo corpo dela, prendendo as talas à forma, também de madeira; depois vem o fundo que é também de imburana e o tampo da frente que pode ser de pinho ou cedro; coloca-se bonitos frisos de candeio, que é madeira preta, para diferenciar da imburana e do cedro ou pinho, madeiras claras; o braço é de cedro, mas o espelho dele é de jacarandá; as craveiras de pau d´arco, o cavalete de jacarandá. Um detalhe a mais: o braço é enfeitado com pequenas circunferências feitas de plástico branco, sutilmente cortado com instrumento inventado pelo artesão, imitando um canivete com duas pontas na lâmina: uma menor para servir de apoio, no centro, e a outra, ou pouco maior, para perfurar o plástico, fazendo a circunferência como um compasso. As ornamentações no tampo da viola são feitas com jacarandá incrustado. As "ornamentações do Minervino", acima do cavalete, antes da boca (sua assinatura, pois é como são reconhecidas as suas violas) tem formato de flores.

Com o instrumento pronto, alisado e com as cordas apertadas, Minervino corre-lhe os olhos embevecidos (ele gosta do que faz!) e o acaricia dizendo um verso tirado das cantorias de folia:

"Quanto mais raio esta viola,
mais aumenta o meu pená!"

A rabeca demanda quatro dias para ficar no ponto de chorar melodias na folia. É toda feita de imburana vermelha, menos o braço que é de cedro. O arco é de aroeira e a linha (cordas) de nylon (antes era de rabo de égua, preferencialmente). Pela delicadeza do instrumento toma-se mais tempo. Pronta é um primor e nela ele passa os dedos tirando chorosos acordes, que tocar bem e bonito é com ele mesmo.

Minervino faz, com a mesma arte, caixas de todos os tipos, usando tamboril ou imburana; arco de caraíba, couro de veado (hoje de gado) e baquetas de aroeira. Pode variar, também, de acordo com o gosto. O exímio luthier fabrica, ainda, outros instrumentos dos foliões: balainho, reco-reco, pandeiros e todo tipo de instrumento, lembrando que grande carapina foi um dia, quando mais moço, cheio de força e vida, a construir engenhos de cana que moíam macios; currais, cancelas e telhados.

Minervino, desde menino, se entregou à arte de lavrar madeira. Aos 18 anos aprendeu o ofício de fazer viola e rabeca com José Bicota, morador do Chapéu de Pedra, na Santa Justa, não longe dali, na chapada. Saía de casa para aprender o ofício por gostar. A profissão de carapina veio depois.

Conversava com Minervino meio aos instrumentos prontos e outros na armação, das formas e toras de paus, quando chegou na porteira do seu cercado a Folia de Bom Jesus da Lapa que estava na região foliões remanescentes do famoso "Terno de Sô Loro" que o professor Pedro Vieira, da região, está resgatando com muito carinho. Minervino se afastou e foi ao encontro do grupo, tomando a bandeira do Divino nas mãos, conduzindo-a até à entrada de sua casa. Passou-a para a mulher e tomou a rabeca - um instrumento lindo que acabara de fabricar - e fez a pose de folião, chapéu caído na testa. A rabeca ganhou vida na saudação ao Bom Jesus, nas "sussas", "quatro" e numa gostosa e picante "chula".

Por fim fomos todos tomar da pinga de Zé Rodrigues (Traçadal) na cuia. A pinga era tão deliciosa, mas tão boa mesmo, que um dos foliões ao acabar de saborear um gole, parou a respiração, olhou para o céu, estalou os dedos, deu uma bicota e suspirou com paixão: "Que delííiiiiicia... parece mel!". Tal entusiasmo levou o André, que gosta mesmo é de levedo, a se aventurar numa bicota, esvaziando a pequena cuia usada como copo. Depois formamos grupos em torno de várias gamelas, para saborear aquele franguinho da roça com açafrão e muito tempero verde.

Minervino, um grande e notável fabricante de viola e rabeca seus instrumentos já estão ganhando fama alhures e um exímio violeiro e rabequeiro, apaixonado pela folia e pelo sertão onde tem fincado profundas raízes. Um tesouro da nossa cultura popular.

O tempo passado, daquele distante agosto de 2000, quando o visitamos e fizemos um artigo para o Boletim Carranca, da Comissão Mineira de Folclore. A notícia ganhou mundo. Foram chegando pesquisadores, amantes da viola e da rabeca e estudantes. Minervino, de repente, se viu cercado pelo interesse do mundo acadêmico e de pesquisadores da arte popular do Brasil. Foi alvo de várias reportagens em programas de televisão do Rio de Janeiro e de São Paulo, quando mostrava sua arte de artesão e, depois, sentado em seu banquinho, à porta do rancho, o seu talento imenso como dedilhador de viola e exímio rabequeiro, tocando baiãos de Luiz Gonzaga e músicas da região. Foi assunto de livros e revistas, alguns de circulação nacional (Tocadores - homem, terra, música e cordas, de Lia Marchi, Juliana Saenger e grande Roberto Correa; ed. Brasil 2000, patrocínio Petrobrás e Siemens). Recebeu homenagens do Rotary Club de São Francisco, apresentou-se no III Encontro das Raízes Culturais de São Francisco, em festivais de folclore em Brasília-DF, Chapada Gaúcha e mais não foi por causa da idade, mas tantos sãos os convites, inclusive de faculdades de artes de Belo Horizonte.

Agora, coroando tudo isso, um trabalho de tantos e tantos anos, ele foi escolhido pelo IPHAN - Ministério da Cultura - para, ao lado de Nego de Venança (também de São Francisco), ser o mestre de uma escola de artesanato para criança - fabricação de violas caipiras, rabecas, caixas, balainhos e outros instrumentos regionais.

Salve Minervino, o mestre artesão da viola e da rabeca! E salve a nossa cultura popular!

Texto e fotos de João Naves de Melo, São Francisco-MG.
Membro Efetivo da Comissão Mineira de Folclore.