
Antônio José Cabral, o Seu Cabral, homem simples, educado e chegado numa prosa ao som de uma viola, nasceu na roça, no município mineiro de Sto. Antônio do Monte.
Pai de quatro filhos, se orgulha de ter a família toda envolvida com a madeira. O mais velho é dono de uma fábrica de guarda-roupas onde uma das filhas o ajuda no escritório, e as outras duas juntamente com a esposa trabalham nos entalhes para os detalhes dos móveis.
Iniciado desde cedo, por influência do pai, na arte de trabalhar a madeira, se diz um apaixonado pelo o que faz. Ainda muito jovem começou a fazer seus primeiros banquinhos, camas e mesas, como ele mesmo costuma dizer, “tudo feito meio no facão. Tava aprendeno ainda”.
“Meu avô era homem de muitas posse, fazendêro respeitado na região. Com sua morte, a fazenda foi dividida entre os filho, mas meu pai num tinha aptidão e acabô perdendo a herança. Aí tivemo que mudá pra outra fazenda, onde ele foi contratado como carapina. Lá eu comecei a lidá com madeira. Eu num cheguei a vê meu pai rico, não. Quando viemo pra Bom Despacho nóis já tava pobre.”
Aos 61 anos, Seu Cabral lembra emocionado da infância pobre, do pai carapina, da mãe caridosa e dos ir-mãos, sendo quatro mulheres e quatro homens, seguidores dos ensina-mentos do pai.
Quando eles se mudaram para Bom Despacho-MG, na ocasião estava com 17 anos, trabalhou “de graça” por um ano em uma fábrica de móveis, a mais famosa que havia na cidade. Dentro da sua humildade, ali foi aprendendo o ofício, acostuman-do com as máquinas, se profissionalizando.
Após servir o exército, foi pra capital paulista aperfeiçoar suas técnicas, onde ficou por uns tempos. Retornou trazendo grande conhecimento, o qual passou aos companheiros, assumindo cargo de chefia na fábrica.
Com a técnica apurada, seu Cabral passou a ser o carpinteiro mais respeitado e procurado na cidade. Fazia esculturas, entalhava detalhes para enfeitar os móveis que fazia (e ainda faz) com grande maestria.
Certa vez seu sogro chegou com um braço de viola, que havia encontrado no lixo: “- Antônio, cê consegue fazê uma viola com esse trem aqui? - Uai, eu posso tentá, né?”. Levou a peça para a oficina e com compensado comum de 3mm ele fez sua primeira viola, a qual foi dada de presente ao sogro. E a viola tocou! Isso aos 23 anos de idade, dois anos após seu casamento.
Muitos anos mais tarde, por volta de 1996, encontrou o amigo médico, violeiro e catireiro, Dr. José Maria Campos que tinha adquirido uma viola do luthier Vergílio Lima, de Sabará-MG. Ali despertou o interesse em fazer um instrumento “na regra” como aquele.
Trinta dias depois Seu Cabral apresentava a viola para seu amigo tocar e aplaudir sua criação. E já foram mais de duzentas violas criadas por esse luthier auto-didata.
Um certo dia, após observar a famosa viola de Queluz, que o impressionou pela riqueza dos detalhes, passou a fabricar suas violinhas cinturadas, marchetadas e com in-crustrações em madeira e osso. A partir de então sua arte apareceu com suas “belezuras”, encantando os olhos e os ouvidos de violeiros de todo o país.
Suas violas já passaram pelas mãos de violeiros de renome como Zé Mulato e Cassiano, Almir Sater, Zico e Zeca, Fernando Sodré, Pereira da Viola, Chico Lobo e outros mais.
“Aqui em casa o Chico Lobo experimentô foi uma viola que eu fiz com tampo de bambu. Precisa vê como fica chique! Num tem pinho-de-riga, num tem madêra importada pr´ele não. Fica bonito e bão de som.”
Suas violinhas são feitas com caviúna, pau-marfim, cedro e jacarandá mineiro. Mas deixa ao gosto do freguês a escolha das madeiras a serem utilisadas. Até pau-brasil já foi testado, com excelente resultado, como a que eu tenho e levo comigo aonde vou.
“Minhas viola são feita com carinho, isso eu garanto. E eu sempre peço à Deus que, quando eu mando uma delas pra longe, que ela chegue bem, e que quem adquiriu fique sa-tisfeito, fique muito feliz de tê ela.”
Seu Cabral é mais um exemplo da sabedoria do nosso povo simples, criativo e apaixonado pela viola caipira. Vive com sua esposa e as filhas em um bairro tranqüilo, afastado do centro da cidade, onde costuma receber os amigos e os interessados pelas suas violinhas com o mesmo carinho e respeito, seja para fechar um negócio, um dedo de prosa ou para repicar as cordas numa cantoria.
Contato: (37) 3522.3183
VIOLA DE BAMBU, ECOLOGIA COM ARTE
Seu Cabral, luthier de Bom Despacho-MG, confeccionou uma viola caipira em bambu. O resultado foi uma violinha linda com um som maravilhoso e um acabamento impecável.
Lateral, fundo, tampo, braço, escala, mão e cavalete, tudo na violinha foi feito em bambu apanhado, curtido e trabalhado pelo luthier. “Madêra” - segundo Seu Cabral - “só no interior da viola e na marcheteria. O resto é bambu puro”.
“O bambu” - comenta - “tem que ser apanhado na lua minguante. Num pode sê no início nem no final da fase da lua e, de preferência, nos mêis que num tem ‘R’. É daqueles bambu grosso, com a parede grossa. Eu corto ele e cozinho com água e querosene, que é pra num corrê o risco de bicho comê. Depois da secage, a gente faiz as chapa pro fundo, pra lateral e pro tampo. Nessa violinha, a escala, o cavalete e até braço com a mão, foi feito com bambu. A questão de fazê a viola é a mesma da de madeira, mas com bambu demora mais, porque ocê tem que prepará ele primêro. O segredo é o gosto pelo o que cê faiz. A gente precisa colá os pedaço primêro e depois dá acabamento. A viola fica igualzinha as feita de madeira e o som é igual tamém. Tem gente que acha que ela fica até mais bonita!”
Seu Cabral é um exemplo de simplicidade. Na varanda da sua casa, ao lado da oficina onde ele cria suas preciosidades, conversamos sobre seu trabalho, enquanto ele cantava em dueto com a esposa, algumas pérolas da nossa música raiz.
Contado: (37) 3522.3183 / 9955.2229

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