
Joacir Ribeiro de Carvalho é natural de Campo Grande-MS, mas com dez anos se mudou com a família para São José do Rio Preto-SP. Foi após a mudança de cidade que começou seu trabalho como luthier e hoje faz viola para nomes como Almir Sater, Goiano (da dupla Goiano e Paranaense), João Mulato, Fernando Deghi e vários outros.
Antes de ser luthier, Joacir teve várias profissões, de marceneiro a mecânico de automóveis. Mas foi quando saiu do exército que começou aprender a arte de fazer viola. Como estava desempregado, o irmão que já era luthier de violino, o convidou para trabalhar com ele. Com o passar do tempo os irmãos perceberam que não poderiam mais contnuar a trabalhando juntos, pois um estava fazendo concorrência ao outro.
Segundo Joacir, um violeiro da região fez uma encomenda de viola e seu irmão não quis pegar para não misturar os instrumentos, então Joacir decidiu ficar trabalhando com viola e violão e não mais com o violino. Ele conta que seus primeiros trabalhos não ficaram muito bons, mas que deu para vender os instrumentos.
Apesar das dificuldades Joacir foi se aperfeiçoando. Devido aos poucos recursos ele mesmo tinha que fabricar algumas ferramentas e poucas eram compradas. O segredo desse luthier é sempre procurar um defeito no instrumento que fez e nunca pensar que já está perfeito: “Tem que procurar aperfeiçoar em cima daquilo que você fez. Isso é fundamental! Cada ano que passa você olhar pra trás vê o seu trabalho e fala, 'Nossa, melhorei bastante'!”.
Com tanta dedicação Joacir criou seu padrão de viola, que é feito com o fundo e a lateral de jacarandá da Bahia, o tampo de pinho abeto e escala de ébano. Quando há alguma encomenda onde o violeiro queira um material diferente, ele varia apenas o fundo, a lateral e o braço, mantendo sempre o tampo e a escala. Ele explica que alguns luthiers usam o jacarandá para fazer a escala devido ao seu baixo custo, mas adverte que a durabilidade do jacarandá é menor. “O ébano não gasta, tem cor preta, é uma madeira específica para escala. Internacionalmente, em todos os métodos profissionais é ébano na escala, você não pode por outro”. Joacir diz que a respeito de fazer instrumento mais em conta financeiramente, não vê vantagem, pois a produção é limitada, e não adianta cair na qualidade já que não vai conseguir fazer mais encomendas devido ao tempo: “Eu também não preciso me preocupar em querer abraçar tudo, porque a produção é de no máximo dois por mês. Então não tem como pegar muito mais porque se eu passar pra outra pessoa não sai igual e eu tenho que manter o padrão. Seu eu não puder melhorar, também não posso cair. Tem que manter a qualidade tentando melhorar”. Para Joacir é muito importante a impressão que os violeiros vão ter do seu trabalho quando virem uma viola que foi feita por ele. O luthier conta que se um violeiro leva a viola que ele fez para um local onde ninguém conhece seu trabalho, o que vai marcar é a qualidade do instrumento.
Joacir afirma haver um crescimento duplo no universo da viola, tanto musical quanto na luteria. Para ele isso é muito importante, pois o violeiro que está começando e ainda não pode comprar um instrumento muito caro, pode comprar uma viola dos luthiers que estão começando, ainda estão crescendo e por isso fazem a viola mais barata. A partir daí o surgimento de novos violeiros e luthiers vão caminhando lado a lado, um impulsionando o outro. Joacir gosta desse aumento de “fazedores de viola” e não se sente ameaçado com a nova concorrência, e ainda brinca: “se eu quiser vender demais vou acabar caducando”.
Sobre os luthiers que estão começando, Joacir se preocupa apenas com um aspecto. Segundo ele, nem todos estão preparados para variar o estilo da viola em relação ao som que ela produz. Ele explica que o conhecimento da profundidade da área acústica do instrumento é o que torna o luthier capaz de fazer uma viola que produza o som com determinada característica. Então ele deve ser capaz de produzir diferentes violas sem se perder. O luthier deve estudar o perfil do músico, saber qual estilo dele e as músicas que toca, para produzir um instrumento que dá o som de acordo com a característica do violeiro. “Quando eu fui fazer viola pro Renato Andrade nós conversamos bastante, ouvi as músicas dele. Trabalhei em cima do perfil do músico pra fazer o instrumento. Com o Almir foi a mesma coisa. Eu faço viola pro Almir diferente da que eu faço pro Renato e a do Goiano também é diferente, porque cada violeiro tem um som na cabeça”, exemplifica Joacir. Para ele a experimentação e a flexibilidade são essenciais na arte de fazer viola.
A luteria é uma ciência que não se aprende com números, mas sim com experiências, “porque o luthier trabalha com madeira e madeira não é produzida em série, cada árvore tem uma consistência, cada madeira tem um som distinto, e não tem como calcular geometricamente”, justifica ele.
Apesar de achar o som da viola bonito, Joacir nunca aprendeu a tocar devido ao tempo. Para ele, tocar e fazer viola são duas dádivas muito parecidas, principalmente por que ambas precisam de sensibilidade. Mesmo quando um luthier não tem estudos, ele tem uma sensibilidade que o torna capaz para identificar e qualificar um som. Para ser um bom luthier é essencial que observe e escute muito, mas principalmente que saiba classificar aquilo que se ouve.
O estilo da música que o violeiro toca influência até mesmo no tamanho do bojo da viola. “Tem estilo de música que não adapta a uma viola cinturada, estreita ou pequena, tem que ser uma viola com o bojo maior. Agora tem certos músicos que tem uma viola grande e outras menores, mais cinturadas, porque ele adapta cada tipo de viola a um tipo de música”.
Joacir começou trabalhando numa região onde os violeiros exigiam um tipo de viola com o bojo maior, então ele se tornou um especialista naquele tipo de viola, mas ainda assim não abandou a viola mais cinturada que ele mesmo classifica como sendo uma "viola mais feminina, mais barroca, mais mineira".
DICAS DO LUTHIER
Joacir explica que a madeira sofre influência climática e causa mudanças no instrumento. Por isso ele aconselha que, na hora de fazer uma viagem onde vai expor o instrumento a uma mudança climática, “é melhor dar uma meia volta na tarracha” (afrouxar as cordas), pois o excesso de calor empena o braço e estufa o tampo.
Ele ressalta que se o instrumento for resistente, com tensor no braço, a alteração será menor do que se o instrumento for todo de madeira.
Outro cuidado é não deixar o instrumento num local muito quente ou exposto ao sol. Ele ainda adverte que na época de seca deve-se deixar o instrumento num local mais úmido, “perto do banheiro, por exemplo”, principalmente se ele for de madeira maciça, pois corre o risco da viola trincar. Devido a essas mudanças climáticas que interferem na viola, o luthier deve prestar atenção na umidade do local onde a viola está sendo feita e também na umidade da região para onde a viola vai.
Em relação ao tamanho da escala e a afinação a ser usada, Joacir adverte: “Quanto maior a escala, maior a tensão”. Caso a afinação da viola seja em Ré (D) e a escala seja pequena, a viola vai ficar mais macia, “vai ter menos pressão para chegar àquela altura”, mas se a escala for maior, ela vai ficar mais dura. Já para “cebolão” em Mi (E), o tamanho maior para a escala é de 580mm, caso contrário ela fica dura.
Na hora do luthier fazer a viola ele tem que se informar sobre qual afinação o violeiro vai usar, mas Joacir faz uma ressalva: “a escala 580mm é uma escala média, e re-solve bem as afinações. Dentro dessa escala pode-se afinar de Mi (E) a Rio-abaixo (G) apenas trocando as cordas. Se você for afinar a viola em Mi (E), você coloca uma corda de calibre mais fino. Se for afinar em Rio-abaixo (G) usa um calibre mais grosso. Se for Ré (D), um calibre médio. Então essa variação de corda dentro da escala de 580mm não dá problema. A escala 580mm faz com que a viola seja universal”.

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