VÁRIOS TEXTOS
por Eliana Arens
Ô violeiro! ... Ô violeiro! É... você mesmo! Não é você que está querendo gravar um CD? Diz que se conselho fosse bom ninguém dava, vendia. Então, como diz a moçada por aí: - Vou te dar um toque (esquisito né? ... diz que violeiro não gosta desse tal de toque aí não). “Pres`tenção e se o consêio fô bão fica com ele procê.” Não é por nada não! Até desculpe a invasão, mas é que eu sou assim mesmo, vivo metendo o nariz onde não fui chamada. Por isso quero deixar bem claro que não tenho nenhum conhecimento técnico sobre o assunto, é puro palpite mesmo. Ô gente! Vamos falar sério agora! Têm umas “capa” de CD... que pelo amor de Deus... que “qué” aquilo? ... Coisa horrorosa! “Tá certo que o negócio docêis é viola ... mas ocêis não qué vendê CD? ... Não qué fica famoso? ... Não sabe que a propaganda é a alma do negócio?” Tudo funciona assim! O que faz a gente experimentar uma comida, uma bebida ou um doce é a aparência, o aroma, a cor... (ou não é?) Fala aí violeiro: uma mulher bonita... não faz você suspirar? E você violeira: que boca dá vontade de beijar? Não é aquela que te abre um sorriso lindo com dentes branquinhos e hálito fresco? (êpa, já ouvi isso em algum lugar!). Felizmente alguns violeiros já se aperceberam disso, sinal que nem tudo está perdido. É o caso do violeiro Zeca Collares, por exemplo, que tive o prazer de conhecer dia 19 de setembro na 1ª Expocachaça de São Paulo. "Primavera Mineira", um dos CD`s instrumentais mais lindos que já ouvi, doce, suave, envolvente. E a capa, Flores do Cerrado, pintura de Magali Fornazari completa o trabalho inspiradíssimo desse violeiro. Por indicação de uma amiga minha parti em busca do CD "Alma Lavada" de Cláudio Lacerda, e fui muito feliz na escolha posto que sua capa é completamente diferente do exemplo anterior e igualmente linda. A beleza do cantador refletida nas imagens captadas pela lente de Roney Perez é de tirar o fô-le-go. E neste momento, esperando ter atingido meu objetivo que foi mostrar o grau de importância na escolha da capa de um CD e para ser justa encerro este texto. Pensem no assunto!
COISAS DA ROÇA
Receita: Sambambaia
por Leonildo Miranda Araújo
Pega um môio de sambambaia (aquês ramim pariceno umas mãozinha) de preferênça no morro do paió lá do Serro (ali, esse trem dá que nem mato, sô!), pica bem picadim, e freventa ela com sá pra tirá a margura (se ocê quisé, cê pode fazê qui nem a Domariana, lá de Valadares que pega um tiquim de cinza e põe numa saculinha de pano den d'água, de junto das sambambaia pra tirá a margura e dexá ela bem virdinha tomém. Dá certo, viu!). Aí, ocê coisa ela num canto e dexa ela discansá. Ajêita uns dois quilo de custelinha, tempera a gôstio, frita bem fritinha e iscorre o restim da gurdura. Bota aio e urucum, e dispeja água fria pru cardo ingrossá. Antão, dispois de treis frivura, rivira a sambambaia e dêxa cuzinhá inté no ponto. Sapéca a cibulinha e sarsinha pru riba e dispois de tudo cuzidim, faz o angu de fubá de mio bem bão e come com a sambambaia. Ê!, trem rumado, só! É bão dimais da conta!
Biête: Quando arguém chamá ocê de munheca de sambambaia, ocê come essa recêitia, mais num isquece de abri as mão dispois, né! Num carece de marrá mixaria pra mode Deus ajudá. Bem diz a Tereza, minha mãezinha preta, lá de Treis Barra, pertim de Mio Vêidi, que “o poco cum Deus é múntio, mais o múntio sem Deus num é nada”. A Tereza, uma muié de valô, rainha e festera das Festa do Rusário lá do Serro, é qui ajudô a carregá aquês dois, os gêmi, Leosino mais Leonildo. Ela vivia passiano pra baxo e pra riba, cidade afora, com os dois na cacunda.
VIOLA GIGANTE
João Viola, conhecido luthier de Maringá-PR, resolveu escrever o seu nome nos anais da história, e para tanto construiu, após 300 horas de trabalho, uma viola caipira com 5,13 metros de comprimento e 1,61 metros de largura (no corpo), toda em madeira nacional, machetada e com tudo mais que uma boa viola exige. No tampo, na lateral e no fundo foi utilizada a virola; cedro rosa no travamento; caixeta no braço; e cedrão na escala e reforço do braço. A tarracha é idêntica a original e as cordas foram importadas da Alemanha, de uma fábrica de cordas para piano. Devido ao tamanho, toda a sua construção teve que ser feita do lado de fora da oficina. Com acabamento e pintura feitos a mão, o artista trabalhou sozinho na sua construção.
Há seis meses João Viola vem trabalhando em seu projeto e acaba de finalizá-lo com o apoio de vizinhos e familiares: "Este projeto vem me acompanhando a vida toda. A viola gigante que construi não é somente uma obra de arte, mas sim a história de um luthier que vem lutando contra tudo e contra todos em busca de uma vitória honesta e honrosa, valorizando com talento e dedicação este instrumento que está no sangue de todos nós brasileiros. Estou a caminho de um recorde mundial”.
Vindo da roça pra cidade, João Viola começou sua arte aos oito anos de idade observando os instrumentos que tanto o encantava. Autodidata, desenvolveu sua própria maneira de construir seus instrumentos, dando uma característica própria para cada um, de acordo com o tocador que o encomenda, e hoje é reconhecido em todo o território brasileiro.
Com esse intento, João conseguiu não só bater um recorde, mas seis recordes mundiais de uma só vez:
1) a maior viola caipira do mundo;
2) originalidade na construção;
3) afinação e execução da viola;
4) tempo de trabalho até finalizar;
5) trabalho feito por uma só pessoa;
6) cinco recordes num só.
O SERTANEJO E AS ONÇAS
por Rodrigo Delage / violeiro
Ah, seu moço, o homem acaba com tudo. Bonito era se ver a serra antes da companhia chegar. Essa serra tem muitos espaços, gerais. Menino, nela eu conheço lugares muito bonitos e lugares muito feios também, onde homem nenhum, por si, nunca não chega. Esse sertão nosso é assim, no devagar, no devagante.
Das coisas que vi e vivi, tenho muita saudade, saudade é vontade de ver de novo o que não mais se pode enxergar. A gente todo dia que ia campear na serra, no alto do chapadão, topava com as antas, veados nos campos ralos, cheguei a ver, moço, maloca de mais de vinte campeiros, juntinhos, que, quando viam a gente, se espalhavam em correria desembestada. Hoje? Quê.
E as onças! As onças nessa serra eram demais. Lugar de muita pedra, lapas onde elas se escondem e criam seus gatinhos. Dizem que aqui, três pragas havia: ladrão de gado, erva e onças. Quando pegava a criação, tinha de se juntar os cachorros antes que o cheiro do rastro deixado se apagasse. Era cada barroado bonito, a cachorrada parece até que chorava. Quando a onça acuava no pau era mais fácil, aí a língua de fogo queimava, mas quando lapava, hum...
A gente tampava a entrada da lapa e no outro dia voltava preparado. Um ia com a luz, feita com fios de algodão misturados com cera de abelha, que é pra mode não queimar rápido demais, porque lanterna naquela época não havia. O outro, menino, ia com a zagaia! Arma encastoada no pau-d'arco, que era o que agüentava o tranco e o peso da bruta. Não tinha como se entrar com arma de fogo, o estampido de um tiro dentro de uma lapa não é coisa que o ouvido nosso agüente. Alumiava, buscando as duas fagulhas, as duas brasinhas dos olhos verdes da bicha. Homem, a zagaia entrava na boca e tinha uma trava para que a onça não puxasse ela de volta. Fazia dó.
Isso eu conto lembrando do meu pai, porque eu mesmo nunca matei. Gosto dos bichos, a terra não é do homem e nem o homem é dono dos bichos do nosso sertão. Do jeito que lá vai, é capaz que um menininho desses só conheça esses bichos de causo e foto. Mas não era fácil, o medo era do fogo se apagar.
Aí moço, zagaiar no escuro não tinha como. E quando a gente topava com a tigre, preta igual noite sem lua? Era quase o mesmo que tentar pegar a própria sombra, nesses noitões sertanejos. Na preta, o branco dos olhos realçam por demais. Hoje, quando em vez, vejo rastros delas lá na fazenda, no rumo da serra, mas é de passagem, esse bicho anda demais. Há pouco tempo, topei com uma vermelha. Vinha voltando de bicicleta, fugindo da chuva que estava armada, coriscos riscavam e trovoadas roncavam no céu fechado.
Era esse tempo de agora, sequidão braba, época de caírem as primeiras chuvas, quando o cerrado é só paus e o sertão é só poeira. Quando virei em uma curvinha da trilha que cumpria, avistei um bicho, achei que pudesse ser um guará, mas quando me aproximei, moço, era uma onça, e ela não fugiu de mim não! Ficou parada, em pé, me olhado por cima dos olhos, com as costas arrupiadas e o cabo enrolado. A bichinha tava sentida que era só pele e osso, chega dava pena. Dependendo da época, onça passa fome sim senhor.
Hoje, além acabar com o cerrado, o homem ainda pega uma ou outra caça que sobra. Tive medo de que aquele bicho pudesse pular em mim. O recurso que tive foi gritar. Gritei, barulhando o mais que pude em direção da bicha e foi quando ela resolveu dar meia volta e começar a correr e, aos poucos, o cabo foi desenrolando e os pêlos das costas se abaixando, até que ela entrou no cerrado e eu, moço, então despinguelei serra abaixo. Ah, esse nosso sertão era assim...
LOUCO POR TONICO E TINOCO
Há mais de 40 anos Raimundo Nonato, de Viçosa-MG, vem colecionando os discos da maior dupla do Brasil
texto Pinho
“Quando criança, ia pra roça de um tio onde ouvia os programas da maior dupla caipira do Brasil: Tonico e Tinoco. Era num daqueles rádio movido a bateria (ainda não existia pilha), e ficava ali grudado, sem perdê nada”.
Hoje, Raimundo Nonato da Silva Castro, 58 anos, natural de Viçosa-MG, anima festas com sua sanfona, sua outra grande paixão que o acompanha há muitos anos.
Marido de Ana Dalva, pai de duas filhas, uma das quais já lhe deu uma netinha, tem orgulho de sua coleção com mais de sessenta LPs e vinte CDs.
Por ocasião de um show da dupla na cidade de Porto Firme, a 30 km de Viçosa, Nonato levou seus discos para serem autografados.
Após o show dirigiu-se ao camarim que, após a solicitação, foi atendido prontamente pelos dois, quando o Tonico fez um comentário, que ele guarda e repete satisfeito: “Nem nóis num tem e o moço tem tudo. Ele gosta de nóis memo, Tinoco!”
Raimundo Nonato, recorda do pior dia de sua vida, quando sua esposa lhe deu a notícia da morte de Tonico: “Eu tinha chegado pra almoçá e a muié me disse que tinha uma notícia pra me dá, mas que eu devia comê primêro. Eu pedi pra que ela falasse logo e daí num consegui comê mais. Tinha saído na televisão, mas num dava pra acreditá naquela história. O ídolo da gente, quando morre é muito triste! Todo mundo tem alguém de quem gosta mais, e pra mim foi Tonico e Tinoco. Pra mim nunca existiu outra dupla igual!”
Contato: (31) 3891.7346
HABEAS PINHO
Um caboclo cantava, numa fria madrugada do mês de junho, quando chegou a polícia e apreendeu sua viola. Decepcionado, o violeiro recorreu aos serviços de um advogado que peticionou em Juízo, para que fosse liberado o instrumento.
Esse petitório ficou conhecido como “Hábeas Pinho" e enfeita as paredes de escritórios de muitos advogados e bares em todo o país. Eis a famosa petição: (Adaptação: Pinho)
Exmo.Sr.Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca
O instrumento do crime que se Arrola
Neste processo de Contravenção
Não é faca, revólver, nem pistola
É simplesmente, doutor, uma viola
Uma viola, doutor, que na verdade
Não matou nem feriu um cidadão
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem a ouviu vibrar na solidão
A viola é sempre uma ternura
Instrumento de amor e de saudade
O crime a ela nunca se mistura
Inexiste entre eles afinidade
A viola é própria dos cantadores
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam as mágoas
Que povoam a vida
E sufocam suas próprias dores
A viola é música e é canção
É sentimento, vida e alegria
É pureza, é néctar que extasia
É adorno espiritual do coração
Seu viver como o nosso é transitório
Mas seu destino, não, se perpetua
Ela nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de cartório
Mande soltá-la pelo amor da noite
Que se sente vazia em suas horas
P'ra que volte a sentir
O terno açoite
De suas cordas leves e sonoras
Libere a viola, Dr. Juiz
Em nome da Justiça e do Direito
É crime, porventura, o infeliz cantar
As mágoas que lhe enchem o peito?
Será crime, e afinal, será pecado
Será delito de tão vis horrores
Perambular na rua um desgraçado
Declarando à lua os seus amores?
É o apelo que aqui lhe dirigimos
Na certeza do seu acolhimento
Juntada desta aos autos
Nós pedimos e pedimos
Também DEFERIMENTO
O juiz deu sua sentença no mesmo tom:
Para que eu não carregue
No coração essa dor
Que tanto o desola
Determino que se entregue
ao seu dono essa viola!
ORAÇÃO DO SERTANEJO
por Geraldo Meirelles, o “Marechal da Música Sertaneja”
Deus de minh´alma, Pai da minha vida, escuta a reza simples e pura de um coração caboclo. Vivendo, dia e noite, entre as maravilhas do céu e as belezas da terra, sinto minha vida muito perto de ti. Sinto que me vês. Sinto que me amas. Sinto que me falas e proteges. Guarda, bem guardada, no fundo do meu coração, a certeza de que estás a meu lado e a vontade de conversar contigo. São todas interiores, ó Pai, as riquezas do filho pobre. Riquezas que Tu me deste, quando me deste os pais que tive ou que tenho. Deixa-me agradecer, de coração, ser rico em meu coração. Mora nele tudo o que sou e tenho. Mora a Fé, que Tu me deste e que procuro defender, procuro aumentar. Mora a Esperança, que não me larga em tudo o que faço e padeço. Mora o amor, o escondido e forte amor do homem do sertão. Mora a paciência, companheira que me segue pelo dia afora e vence comigo as dificuldades da minha vida. Deus de minh´alma, Pai de minha vida, dá-me tudo o que eu preciso, ensina-me a pedir o que me faz bem. Conserva, junto de mim, as coisas que minha vida espera: a família feliz, a saúde forte, os campos prósperos, o gado bonito e resistente, a casa querida, a chuva a seu tempo, o sol que amadura o grão, a lua que coa prata no sertão, o vento que refresca, as cores que alegram, os filhos que prometem tanto, a virtude que garante, a fé que ilumina, a esperança que leva pra frente, ano após ano, a vida quieta do caboclo, até chegar a hora de contemplar teu rosto, solene e amigo, ó Pai de minh´alma, Deus de minha vida, da vida simples e pura de caboclo do sertão.
Assim seja!
MULA-SEM-CABEÇA: CASTIGO DE MULHER DE PADRE
Lendas Brasileiras
Madrugada de quinta pra sexta. Viajante assustado se apressa. Tropel distante. Barulho de cascos, gemido quase humano e relinchar pavoroso. Surge na curva o bicho. Solta fogo pelas ventas que não tem. Atrás, cachorros latindo. Ele ataca quem encontrar pelo caminho, desferindo coices que cortam como navalha. Mula-sem-cabeça é mulher que mantém caso amoroso com padre. Castigo: vira mula nas noites de quinta pra sexta-feira e corre sete cidades. Dizem que só o padre pode evitar a sina. Deve amaldiçoar a amante antes de celebrar a missa.
O encanto também é quebrado quando, em luta, alguém lhe causa ferimento que derrame sangue. A mula-sem-cabeça retoma forma humana, nua.
POEMA CAIPIRA (OU A TRISTE REALIDADE DO HOMEM)
Vô contá como é triste vê a veíce chegá, / vê os cabêlo caíno, vê as vista incurtá. / Vê as perna trumbicano, com priguiça de andá. / Vê "aquilo" esmoreceno, sem força prá levantá.
As carne vão sumino, vai parecêno as vêia. / As vista diminuíno e cresceno a sombrancêia. / As coisa vão encurtano, vão aumentano as orêia. / Os ôvo dipindurano e diminuíno a pêia.
A veíce é uma doença que dá em todo cristão: / dói os braço, dói as perna, dói os dedo, dói as mão. / Dói o figo e a barriga, dói os rim, dói os pumão. / Dói o fim do espinhaço, dói a corda do cunhão.
Quando a gente fica véio, tudo no mundo acontece: / vai passano pelas rua e as menina se oferece. / A gente óia tudo, benza Deus e agradece, / correno ligeiro prá casa, procurano o INSS.
No tempo que eu era moço, o sol pra mim briava / Eu tinha mil namorada, tudo de bão me sobrava. / As menina mais bonita, da cidade eu bolinava. / Eu fazia todo dia, chegava o bichim desbotava.
Mas tudo isso passô, faiz tempo ficô prá tráis / as coisa que eu fazia, hoje num sô capaiz. / O tempo me robô tudo, de uma maneira sagaiz. / Prá falá mesmo a verdade, nem trepá eu trepo mais.
Quando chega os sessenta, tudo no mundo embaraça. / Pega a muié, vai pra cama, aparpa, bêja e abraça, / porém só faz duas coisa: sorta peido e acha graça!
A VIOLA E A MULHER
por Nelson José Lombardi
A viola, com toda a sua harmonia musical latente, tem, na realidade, como outros instrumentos musicais (violão, violino, violoncelo), o formato de mulher, mas entre todos é a única que representa na realidade a mulher ideal.
Nem grande nem pequena, de pescoço longo, ombros roliços e suaves, cintura fina e ancas perfeitas, cultivadas mas sem ostentação; relutante em exibir-se a não ser para aqueles a quem ama; atenta e obediente ao seu amado mas sem perder a dignidade, sendo na intimidade carinhosa, sábia e enamorada.
Conhecemos mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo. Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação harmoniosa que só a viola oferece; como negam-se a se deixar cantar, preferindo tornar-se objetos de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar em benefício de agentes excitantes, como arcos e palhetas, acabam sendo preteridas no final pela mulher-viola, que a pessoa pode sempre que quer, possuí-la carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem a necessidade, entretanto, de tê-la em posições incômodas como o violoncelo, seja de estar obrigatoriamente de pé diante dela, como por exemplo o contra-baixo.
Viola (vale expressar: mulher-viola), divino e maravilhoso instrumento que se acasala tão bem com o amor que nos induz a instantes de intenso encanto, um dos mais belos da natureza humana.
E não é à-toa que o extraordinário instrumento musical nos mais remotos tempos era conhecido como viola d´amore, pela afeição de inúmeros corações que todos os dias são atingidos pelos melodiosos sons harmoniosos de sua cordas. Até na maneira de ser tocado, encostado ao peito, lembra sem dúvida a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar e a ame acima de tudo, por caso contrário ela nunca poderá ser totalmente sua.
Em noite de lua cheia, entre os instrumentos melodiosos criados pela afetividade humana, só a viola é capaz de ouvir e entender a lua.
Gostaram?
Por uma questão de justiça, devo revelar que o presente artigo foi composto baseado em grande parte na narrativa de um amigo que tive o privilégio de conviver na mocidade: Vinícius de Moraes.
(Nelson José Lombardi é membro da “Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais”)
O REVÓRVE DO TROPÊRO
de Pririska Grecco
Sô Delegado eu vim trazê o meu revorvinho,
qu´eu ganhei do meu padrinho
quando me tornei rapaiz.
Há 30 ano mora na minha cintura,
escorando a lida dura de tropêro e capataiz.
Com esse revórve, nessas vorta do destino,
já sarvô muito teatino de apanhá
sem merecê.
Botô respeito sem pricisá falá grosso,
com ele muito arvoroço não deixei acontecê.
Mais deu no rádio que ninguém pode andá armado,
e no rumo do povoado
eu vim tirano a conclusão:
qu´eu fiquei loco ou não intendi a notíça,
pois pensei que a políça desarmava era ladrão?!
Sô Delegado, si um ladrão batê na minha porta...
Devo fugir pela otra?
Me arresponde, sim sinhô!
E se um safado me desrespeitá uma fía,
Quem vai defendê a famía
do hôme trabalhadô?
É muito fácil desarmá quem é direito,
quem tem nome e tem respeito,
documento e profissão.
Muito mais fácil que desarmá vagabundo,
desses que anda pelo mundo
fazeno mal-criação
Pra baguncêro o país tá encomendado:
o povo tá desdomado
e quem manda faiz que num vê!
Nosso governo,
quem tem que prendê num prende,
num vigia, num defende,
nem dexa se defendê!
Ô mundo véio, que tá virado!
Sô Delegado, pres´tenção:
vê se devorve o revórve do tropêro,
vai desarmá desordêro
e dêxa em paiz o cidadão!
REMÉDIOS CASEIROS
Nas horas de aperto, o remédio é lançar mão dos produtos que temos à disposição em nossa dispensa
. A seiva das folhas de abóbora faz desaparecer verrugas;
. Chá de semente de abóbora é calmante e refrescante;
. O suco de acelga musturado em partes iguais com suco de agrião é eficaz contra cálculos biliares. Toma-se um copo todo dia em jejum;
. O chá feito com raízes de acelga é excelente para distúrbios no fígado;
. O suco de agrião fervido com leite é um excelente expectorante;
. O decocto do aipo misturado com salsa, bem picados, é excelente contra a diarréia. Toma-se várias xícaras ao dia;
. Para acabar com a rouquidão e a afonia, cozinha-se folhas de aipo frescas com leite e adoça-se com mel. Toma-se de manhã em jejum;
. O caldo de alcachofras, com um pouco de azeite e muito suco de limão, tomado freqüentemente, acaba com a asma em poucos dias;
. Faça um suco com alface fresca, coe e beba em jejum. Ótimo desintoxicante;
. A alface é rica em vitamina A, é laxante, diurética, depurativa e calmante;
. Para acalmar a dor de ouvido, aplica-se um algodão embebido em azeite fervido com alho;
. O alho é também muito eficaz contra calos, verrugas, sarnas e manchas de pele;
. O purê de batatas bem cozidas é um grande calmante nas irritações intestinais;
. O sumo das batatas é eficaz contra azia e as úlceras do estômago;
. O uso constante de berinjelas ajuda a diminuir o colesterol e reduz a ação das gorduras sobre o fígado;
. O suco de berinjela dá excelentes resultados contra inflamações dos rins e da bexiga;
. Comer beterraba crua é ótimo para combater desarranjos do baço e do fígado;
. O suco de beterraba é um ótimo transportador de oxigênio e um proveitoso estimulante natural do coração;
. O consumo freqüente de brócolis reduz consideravelmente o risco de anemias;
. O chá das flores de brócolis é calmante, diurético e combate as inflamações do tubo digestivo;
. Para acabar com vermes infantis, dê à criança suco de cebola adoçado com mel;
. Massageie suco de cebola no couro cabeludo. Estimula o crescimento dos cabelos;
. O caldo concentrado de cenouras adoçado com mel é ótimo para afonia e tosse;
. O suco de cenoura é laxante e combate com sucesso a prisão de ventre;
. O chá feito com folhas de xicória é ótimo para inflamações nos ovários;
. O suco de couve é um tônico excelente para crianças em fase de crescimento;
. O suco feito com talos de couve combate rapidamente o alcoolismo;
. A couve-flor é um ótimo neutralizante da acidez estomacal.
. O suco de espinafre é ótimo para hipertensão, cálculos renais e cólicas menstruais;
. O chá feito com folhas de espinafre age como calmante e diurético. É ótimo para combater as inflamações das vias digestivas e urinárias;
. O uso contínuo do suco de nabo dissolve e elimina cálculos da bexiga e dos rins;
. Na tosse da bronquite crônica e da coqueluche, toma-se um xarope feito com rodelas de nabo cru com açúcar, que devem ser deixados no sereno por uma noite;
. O suco de pimentão ajuda a eliminar os gases dolorosos do tubo digestivo;
. O suco de rabanete é ótimo tônico para os músculos e ajuda a dissolver cálculos biliares;
. O suco de repolho é excelente para curar enfermidades do estômago, as úlceras, as hemorróidas e o alcoolismo;
. Aplicando-se suco de repolho duas vezes ao dia no couro cabeludo, estimula-se o crescimento de cabelos e evita-se a caspa;
. Friccionando-se a pele com suco grosso de salsa, elimina-se manchas e sardas;
. Um chá feito com ramos de salsa, tomado sem açúcar, acaba com qualquer diarréia;
. O leite de soja substitui com vantagens o leite animal, nos casos de alergia;
. Aplique rodelas de tomates sobre os olhos, para cortar qualquer inflamação;
. O suco de tomate com um pouco de salsa é um santo remédio para artrite.
PROSA DE BARRANQUEIRO
por Rodrigo Delage / violeiro
Essa violinha que você toca é bonita por demais. Qual afinação é essa? Ah, é a violada, que difere de pouco da que vocês chamam de rio-abaixo. Lá em São Francisco conheci um fazedor de viola que me explicou que o segredo tá na cola. Antigamente não existia essa cola fabricada pronta. Na seca, a gente usava uma batatinha, chamada “sumaré”. Nas águas, essa batatinha não presta para cola porque fica aguada demais, aí a gente usa a bexiga de surubim grande, que sobe para desovar, ferve ela e faz uma cola que fica muito boa também. É cada surubim que parece um boi. Armava minhas cordas e quando ia ver aquilo tava embodocado, esticado igual corda de viola, assim como se preso estivesse um marruás, ehh!! Caboclo d'água de rio é surubim mestre. Eu falo para o senhor, o moleque, na água, é forçoso, mas a gente consegue tirar. O surubim de até três ou quatro arrobas, pra tirar tem que dar sorte, remar em canoa boa, de cedro, tamboril ou gameleira, e trabalhar o tal até que ele entregue o corpo.
Agora, menino, o peixe de mais de quatro arrobas, esse, na mão, ninguém não tira. Eu já vi peixe de 140 Kg. Ele nada e arrasta a canoa o quanto precisar, até encontrar uma loca, e aí, enlocando, não tem jeito, a força do bicho é qual um trator, o loango. Surubim é bicho tinhoso, tem tempo que no anzol, se precisar, não pega nem pra remédio. Tem tempo que come tudo que passa perto. Moço, eu já peguei surubim de quase duas arrobas, tarrafeando em cima dele, que vinha descendo rio-abaixo, afundando e aflorando, assim como se estivesse doente. Ah, quando fui ver, o bicho tava era entalado, e sabe com o quê? Com um cágado. Ôxe, você acredita? Nesse sertão, há ver ave. Sertão nosso são esses assombramentos.
Bonito é ver o surubim carujar. Em frente à pedreira, nas águas, junta o cardume, e eles brincam igual menino. Sobem o cabo na flor d'água e batem, rodam e a gente vê o barrigão branco deles sair d'água. Junta a fêmea, que é a maior, e um tanto de machos de todo tamanho, tem machinho moleque que não é nem do tamanho da cabeça da fêmea que ele está cruzando. Depois vem a desova. Não pode pescar nessa época, moço, é judiação.
Uma vez, peguei um surubim e estranhei que o couro dele tava todo empelotadinho, mas, quando olhei de perto, o que tava agarrado nele eram os filhotinhos, muitos mesmo, eu ia passando a mão e eles iam caindo n'água, tive muita pena, mas naquela época a gente não tinha costume de soltar o peixe, mas também, menino, tinha demais. Esses que caíram na água, certo que não viveram, pois, apartados da mãe, ainda não tinham defesa nenhuma e até piabinhas comiam eles. Agora o senhor veja, só assim para piaba comer surubim! Piabinha é bicho danado. Deus não dá asa a cobra, se piabinha tivesse tamanho, ninguém não podia entrar no rio. Esse peixinho não tem medo de nada não, quando se banha no rio, ele vem e chega até a beliscar a gente, veja se pode! Surubim pediu tamanho, piaba pediu valentia!
Contudo, amigo, isso que eu relato é o antigamente. Quem viu, como eu vi, o que aconteceu nessa cheia, aqui nesse nosso rio São Francisco, eu garanto que não segurava o choro. Não bastasse tudo que o homem já faz com o rio: desmatamento para dentro do sertão, que arde nas carvoarias; retirada da mata ciliar; destruição da fauna; assoreamento e tudo quanto é sorte de agressões; esse ano ainda envenenaram os nossos surubins. O que morreu de surubim, moço, eu não sei nem precisar ao senhor. Sei é que a gente nem imaginava que ainda tinha esse tanto de peixe no rio. O surubim é o nosso peixe. Um surubim grande que a gente pegava era a certeza de “cobre” no bolso e fartura na cozinha, é tanto que o povo daqui quando fala “peixe”, tá falando é do surubim. O que achei mais estranho foi que este ano só morreram eles, não foram atingidos os outros peixes desse rio.
Os surubins vinham descendo, uns já inchados, que tinham morrido bem acima, e outros, com resto de vida, ainda vinham buscar a superfície das águas. Tem gente aí falando em mortandade de cinco mil peixes e o pior é que morreu só bicho grande. Eu mesmo vi foi é muito surubim de cinqüenta, sessenta e setenta quilos descendo morto. Dizem que em Pirapora encontraram um peixe de noventa e oitos quilos. Agora imagine você, o tempo que esse peixe gastou para chegar nesse tamanho, moço, o tanto de dificuldade que venceu e quantos milhões de ovas que ele deixava no rio todo ano.
E assim era, porque o peixe nesse tamanho é fêmea, o macho não chega nesse porte e os que morreram foram só as matrizes. Li esses dias no jornal que a causa dessa tragédia foi contaminação das águas por metal pesado (zinco) por empresa grande instalada na beira do rio. Escutei também que a Justiça já estava agindo e eu espero e confio que haja rigor na punição dos responsáveis, apesar de conforme já ter lhe dito, o prejuízo ser irreparável.
Não acredito que toda uma nação e todo o povo que vive nas margens desse rio possam ser prejudicados por minorias de gentes que acho que nem não imaginam a importância dessas águas para nós.
Moço, para se ter uma idéia, eu te digo que Deus para mim é nesse rio São Francisco que me criou e cria os meus meninos. Se o homem acabar com ele, acaba todo esse nosso sertão!
(Manifesto ‘Salvem o Rio São Francisco’)
CASA DE FAZENDA: ARTE EM MINIATURA
Pintor, escultor, poeta e cronista, Wagner Cardoso, mineiro de Campos Altos, é um polivalente das artes plásticas
Nascido em 1957, em Campos Altos-MG, filho de Olívio Cardoso e Dona Lurdinha, Wagner Cardoso é o que se pode chamar de polivalente das artes. Pintor, escultor, poeta e cronista das coisas simples do interior, sua inquietação é evidente.
Seu talento foi percebido ainda na infância. Ao desenhar o rótulo do “Mate Leão”, o patrão de seu pai, Hugo Alencar, despertou no menino o gosto pelo desenho. Não parou mais. Daí às telas foi um passo e desde então, fez de sua arte seu ofício.
Perdeu a conta de quantos quadros pintou e hoje dedica-se também à fabricação de casinhas de fazenda em miniatura.
Wagner publicou em 1982 seu primeiro livro de poesias: “A Alma das Coisas”. Tem praticamente já prontos outros três títulos: “Histórias, Contos, Mentiras e Meias Verdades”, “Poemas, Pensamentos, Poesias e Afins” e o infantil “O Trenzinho Caipira”.
Contato: (37) 3426.2171
HÁ MAIS DE UM SÉCULO ATRÁS, O CAIPIRA JÁ ERA TEMA DE PINTURA
da Redação
O artista José Ferraz de Almeida Junior, nasceu na comarca de Itu, província de São Paulo, em 8 de maio de 1850. Foi o primeiro a retratar com fidelidade e muita beleza a vida do homem do campo, seu lazer, sua expressão corporal e fisionômica, sua moradia e suas preocupações.
Ele foi descoberto pelo Imperador Dom Pedro II em 1875, que ficou encantado com a perfeição de sua obra. Aos 25 anos de idade, recebeu uma bolsa da Princesa Isabel para estudar em Paris. Cinco anos depois criava o realismo caipira com o quadro “O Derrubador Brasileiro”, mostrando a imagem de um mestiço forte descansando com um machado nas mãos. A partir daí, iniciou o registro de nossa terra em seu ambiente de vida.
Sua temática foi variada, mas sem dúvida o regional, incluindo cenas da vida ituana, teve destaque nas suas pinturas. Telas como “Caipira Picando Fumo” é expressão dos interesses do artista pelos tipos comuns, com os quais ele efetiva-mente conviveu no interior paulista.
Mesmo em Paris, onde permaneceu de 1876 a 1882, Almeida Junior manteve-se fiel as suas origens. Em 1886 voltou ao Brasil e passou a ter como tema principal a figura feminina.
Sua principal inspiração era Maria Laura do Amaral Gurgel, pintada diversas vezes, cujo quadro foi até motivo de um prêmio em uma exposição em Chicago, USA. Mas, como diz o ditado: “amor e ódio sempre andam juntos”, Almeida Junior foi apunhalado no dia 13 de novembro de 1899, no auge da fama, pelo marido ciumento de Maria Laura.
A HISTÓRIA DE ANA ROSA E CHICUTA
enviado por Ramiro Vióla, de Botucatu-SP
Quem é fã da dupla Tião Carreiro e Pardinho conhece bem a música “Ana Rosa”, de Carreirinho. Fato verídico ocorrido no passado em Botucatu-SP, “A Morte de Ana Rosa” mistura realidade e lenda, violência e religiosidade.
Ana Rosa era casada com Francisco de Carvalho Bastos, conhecido pelo apelido de Chicuta, um Carreiro que trazia a mulher “num cortado”, ditado do povo da época em 1876. Temperamental e machista, Chicuta tinha um ciúme doentio da esposa e começou a tratar mal Ana Rosa, tanto moralmente como fisicamente transformando a vida daquela mu-lher em um martírio.
Ana Rosa, cansada de sofrer, resolveu fugir de casa, saindo a cavalo rumo à Botucatu-SP. Lá chegando, pediu abrigo e ajuda na casa de uma mulher conhecida por Fortunata Jesuína de Melo, proprietária de um Cabaré.
Chicuta, quando chegou em casa e não encontrou Ana Rosa, como um louco saiu a procura da esposa e armou a vingança. Foi atrás da fugitiva e, chegando à Botucatu, contratou José Antonio da Silva Costa, o Costinha, e Hermenegildo Vieira do Prado, o Minigirdo, para matarem Ana Rosa.
Costinha se fez passar por um bom homem e ofereceu cobertura para Ana Rosa deixar o marido. Mal sabia ela que caminhava para uma cilada mortal.
Quando Costinha chegou com Ana Rosa nas proximidades do Rio Lavapés e ela viu seu marido, se deu conta da emboscada. A moça pediu à todos os santos para que não a matassem e mesmo assim os assassinos, sem piedade, consumaram o crime, esquartejando-a. Ana Rosa morreu no dia 21 de junho de 1885, com vinte anos de idade. Era nascida no Município de Avaré-SP.
Os criminosos foram presos e condenados. Costinha após cumprir a pena saiu e morreu esmagado quando cortava uma árvore. Minigirdo morreu na prisão vítima da varíola. Chicuta, numa tarde de sexta-feira, ia voltando da cidade para a fazenda quando, em dado momento, o carro parou e ele, nervoso, batia nos bois, mas o carro não saía do lugar. Ao se deitar no chão para verificar as rodas do carro, os bois seguiram e as rodas separaram a cabeça de seu corpo.
A história de Ana Rosa é relatada na música “Ana Rosa” de Carreirinho, e gravada em 1957 pela dupla “Tião Carreiro e Pardinho”.
ORAÇÃO À ANA ROSA
“Oh! Alma piedosa de Ana Rosa, vós que tão bem conheceis os sofrimentos desta vida, intercedei por nós junto a Todos os Santos, a Nossa Senhora Mãe de Deus e a Jesus seu filho e rogai pela diminuição de nossa provação e pela solução dos nossos problemas (pensar no problema) e ajudai-nos a ser merecedores da Misericórdia Divina.”
(Rezar três “Pais Nossos” e três “Aves Marias”)
BEM-VINDO À CAIPIROLÂNDIA
por Carine Vieira
Ligamos a tv. Lá está alguém dizendo que não se deve usar pronome oblíquo no início de frase. Tudo bem, vamos ao jornal. Lá está a colunista dando dicas para não "envergonhar" a Língua Portuguesa.
A mídia transforma-se na defensora do Português, e com essa epidemia (que não começou agora) vai incutindo pouco a pouco que a Língua Portuguesa é dificílima. Quem nunca se assustou com alguma regra anunciada em jornal ou tv?
Claro que seria uma maravilha ter aquela dúvida tirada quando mais se precisa saber. Mas, o que acontece não é bem isso. A utilidade da mídia, nesse aspecto, acaba se perdendo pela perpetuação do preconceito.
Verbos como "envergonhar", "decepcionar", "destruir", "errar" e tantos pejorativos se aliam às regras. Pejorativos + regras = baixa auto-estima lingüística. E o preconceito amplia-se cada vez mais.
Para aqueles que pensam que estou radicalizando, darei um dos meus exemplos prediletos. Com vocês a professora Dad Squarisi:
“PORTUGUÊS OU CAIPIRÊS?
Fiat Lux. E a luz se fez. Clareou este mundão cheinho de jeca-tatus. À direita, à esquerda, à frente, atrás, só se vê uma paisagem. Caipiras, caipiras e mais caipiras. Alguns deslumbrados, outros desconfiados. Um - só um - iluminado. Pobre peixinho fora d´agua! Tão longe da Europa, mas tão perto de paulistas, cariocas, baianos e maranhenses.
Antes tarde do que nunca. A definição do caráter tupiniquim lançou luz sobre um quebra-cabeça que ator-menta este país capiau desde o século passado. Que língua falamos? A resposta veio das terras lusitanas.
Falamos o caipirês. Sem nenhum compromisso com a gramática portuguesa. Vale tudo: eu era, tu era, nós era, eles era. Por isso não fazemos concordância em frases como "Não se ataca as causas" ou "Vende-se carros".
Na língua de Camões, o verbo está enquadrado na lei da concordância. Sujeito no plural? O verbo vai atrás. Sem choro nem vela. Os sujeitos causas e carros estão no plural. O verbo, vaquinha de presépio, deveria acompanhá-los. Mas se faz de morto. O matuto, ingênuo, passa batido. Sabe por quê?
O sujeito pode ser ativo ou passivo. Ativo, pratica a ação expressa pela verbo: Os caipiras (sujeito) desconhecem (ação) o outro lado. Passivo, sofre a ação: O outro lado (sujeito) é desconhecido (ação) pelos caipiras. Reparou? O sujeito – o outro lado – não pratica a ação.
Há duas formas de construir a voz passiva:
a) com o verbo ser (passiva analítica): A cultura caipira é ensaístas. Os carros são vendidos pela concessionária.
b) com o pronome se (passiva sintética): estuda-se a cultura caipira. Vendem-se carros. No caso, não aparece o agente. Mas o sujeito está lá. Passiva, mas firme.
Dica: use o truque dos tabaréus cuidadosos: troque a passiva sintética pela analítica. E faça a concordância com o sujeito. Vende-se casas ou vendem-se casas? Casas são vendidas (logo: Vendem-se casas). Não se ataca ou não se atacam as causas? As causas não são atacadas (não se atacam as causas). Fez-se ou fizeram-se a luz? A luz foi feita (fez-se a luz). Firmou-se ou firmaram-se acordos? Acordos foram firmados (firmaram-se acordos).
Na dúvida, não bobeie. Recorra ao truque. Só assim você chega lá e ganha o passaporte para o mundo. Adeus, Caipirolândia.”
Esse texto foi publicado no Correio Braziliense em 22/06/1996, época em que Fernando Henrique Cardoso, numa visita a Portugal, acusou os brasileiros de serem todos "caipiras". Infeliz declaração, que Squarisi parece concordar plenamente, já que nomeia Fernando Henrique de "iluminado".
Apesar de ser antigo esse texto continua ser assustador, pois em 1998 foi publicado em um jornal e sabe-se lá mais quantas vezes e onde.
Bem-vindos ao preconceito – lingüístico, social e étnico.
O título já indica o caráter preconceituoso do texto "Português ou Caipirês?", e, depois, assegura esse caráter com palavras como: "jeca-tatus", "caipiras, caipiras e mais caipiras", "deslumbrados", "tupiniquim", "capiau", "caipirês", "matuto", "tabaréus", "Caipirolândia". Uma dúvida: ser caipira é ofensa?
Em poucos parágrafos Squarisi ofende, despreza e ridiculariza os falantes de outras variedades lingüísticas, que não a dela, única, absoluta e correta.
As dicas e erros que a professora indica não passam de completo desconhecimento do assunto tratado, desvalorizando as reais razões tão estudadas e discutidas pela Lingüística. A língua muda com o tempo, transforma-se (ou ainda estaríamos falando Latim).
Só com um simples exemplo do "truque dos tabaréus cuidadosos" percebemos que não é tão bom assim:
Animais mortos foram trazidos com a enchente => Animais se trouxeram com a enchente (?)
Alguém diz assim? Talvez sejamos "capiaus" demais para a "iluminação" que Fernando Henrique Cardoso e Squarisi têm acesso.
Sem contar que Dad Squarisi apóia-se em Camões para justificar seus ataques contra quem não se "enquandra" na "lei da concordância". Mas, em "Os Lusíadas" temos os seguintes versos:
"E como por toda a África se soa, / lhe diz os grandes feitos que fizeram" (Canto II, 103)
Vamos incluir Camões na "Caipirolândia"? Afinal, pelas regras sintáticas da professora Squarisi, os grandes feitos é o "sujeito" de se soa, e por isso o verbo deveria estar no plural... só que não está.
Bom, tentei mostrar o preconceito incutido nas veiculações da mídia, tão sutil, que passa como engraçado ou despercebido.
Com toda sua força e influência, a mídia poderia destruir velhos mitos e divulgar o que realmente é fascinante no estudo da língua. Pena, não é assim.
Para terminar gostaria de expor um trecho do conto de Monteiro Lobato "O Colocador de Pronomes", publicado em 1924, e citado no livro "Preconceito Lingüístico”, de Marcos Bagno. Trata da regra quanto ao uso do pronome se. O acontecimento se dá quando o professor Aldrovando Cantagalo vê uma placa com os seguintes dizeres: "Ferra-se cavalos" e tenta explicar ao ferreiro que o verbo deveria estar no plural, já que o "sujeito" da frase era "cavalos". Então, ele é obrigado a ouvir uma aula de sintaxe brasileira:
"- V.As. me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu não sou plural. Aquele SE da tabuleta refere-se cá a este seu criado.”
(Carine Vieira é estudante de Letras pela Faculdade Asa de Brumadinho-MG, pesquisadora de Lingüística e Literatura. É escritora de crônicas de assuntos diversos de reflexão individual e coletiva, artigos acerca da educação e colunista da seção “Iscas Linguísticas” do site: www.lucianopires.com.br)
BLANCO CASTRO, UM GRANDE ARTISTA COM ALMA CAIPIRA
Pelo terceiro ano consecutivo, uma obra do artista Blanco Castro estampa o belo cartaz de divulgação do Encontro de Violeiros de Ribeirao Preto-SP.
Artista há mais de 25 anos, Blanco Castro não consegue viver daquilo que realmente sabe fazer: pintar quadros. Assim como muitos outros artistas de todo país, Blanco não consegue tirar seu sustento inteiramente da arte. Aos sábados e domingos trabalha como vigia em uma escola de artes em Jaboticabal, interior de São Paulo, e durante a semana pinta em sua própria casa. "Passo o dia no quintal em meio às telas e pincéis", conta o artista.
Apesar de estar fisicamente divido entre os dois trabalhos, Blanco está seguro do talento que tem para a pintura. "Nunca estudei arte, mas acho que isso tudo sempre esteve dentro de mim", afirma.
A inspiração para seus quadros, que retratam o homem do campo e as for-mas simples de se viver, o artista foi buscar nas memórias de sua infância e adolescência, na época em que viveu num sítio no interior paulista. "Acho que meu processo de criação vem desse ambiente de vida saudável que eu vivi, de muita simplicidade e liberdade também", revela.
É retratando essa vida simples que Blanco legitima suas criações. Para ele, seus quadros são um misto de saudades e boas lembranças. "Sinto que me jogo nessas memórias e a tela responde com muito sentimento. Acho que faço uma arte sincera. Simples e muito verdadeira".
Além de ser autor da pintura que ornamenta o cartaz o “IV Encontro dos Violeiros”, Blanco Castro também ex-pôs algumas de suas obras durante essa grande festa da música caipira. Segundo ele, o encontro é uma preciosa forma de resgatar algo perdido no tempo: a cultura brasileira. As cores e a força das imagens criadas por Blanco retratam esse mundo por vezes esquecido do homem do campo.
Contato: (16) 9728.4945
TODA VEZ QUE EU VIAJAVA PELA ESTRADA DE OURO FINO...
...de longe eu avistava a figura de um menino...", diz a letra de uma das mais conhecidas músicas sertanejas de todos os tempos, composta por Luizinho e Teddy Vieira. Hoje, quem passa pela entrada da cidade de Ouro Fino, no sul de Minas Gerais, depara-se com uma estátua com 10 metros de altura e outros tantos de comprimento, em concreto, dando as boas vindas aos viajantes. Uma idéia no mínimo curiosa, considerando a proporção do monumento (veja a foto onde apareço tocando viola), chamando a atenção de quem passa por aquela pacata cidade, hoje centro de comercialização de malhas, junto às vizinhas Monte Sião e Jacutinga. Enfim, uma justa homenagem ao garoto morto por um boi sem coração, que levou o nome da cidade para além das fronteiras do estado. Parabéns a quem teve a iniciativa e fica lançada a idéia para outros município com seus personagens ilustres. (Pinho)
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