O ROMÃOZINHO
por Rodrigo Delage / violeiro
Riquíssimo se mostra o folclore no norte de Minas Gerais, assim como em todo o seu território. Ao longo do rio São Francisco causos se ouvem, estórias se contam...
Um desses casos, que ouvi na região de Januária, foi o do Romãozinho. Menino de mais ou menos sete ou oito anos de idade. Conta-se que não havia criança de espírito tão ruim, má era a sua natureza, sua vida era o desrespeito, sempre contrariando sua mãe, não a obedecendo, chegando até mesmo a bater nela que, por sua vez, não desistia de tentar endireitar o filho, sempre se apegando na reza e em Deus para que a criança parasse com as malinagens que a todos atormentavam. Com o seu pai, no entanto, era manso e sereno, dissimulado, procurando agradá-lo, aparentando ser sempre amigo, prestativo e respeitoso, sendo que o que mais gostava de fazer era jogar o pai contra a mãe. O garoto era o diabo a atazanar a vida do casal. Quando a mãe se queixava dele com o marido, dava sempre um jeito de desmenti-la, dizendo “Ô paizinho, ocê sempre vê que sou um garoto correto, sempre te ajudo em tudo, não bata em mim não, o que ela está dizeno é mentira, ocê não me viu capinando a roça de manhã? Como é que posso ter matado o cachorro do Tito, nosso vizinho?” E sempre dava um jeito de acusar a própria mãe, inventando mil mentiras e intrigas, sempre jogando-a contra o marido. Um dia deu de inventar que sua mãe tinha ficado o dia inteiro a conversar com um negro chamado João que vinha trazendo uma boiada dos Gerais e pedira para pernoitar junto ao curral da fazenda onde moravam, criando em seu pai uma terrível raiva desaguada em briga que quase termina em morte.
A gota d'água se deu em um deter-minado dia, tempo das águas, quando seu pai fazia a capina do milho plantado, que já brotara firme do solo. Era mês de dezembro, estava próximo o natal, folias iniciando os “apreparo”. Ao ir para a roça, o marido recomendou à mulher que preparasse sua “bóia” pois, logo mais, mandaria Romãozinho buscar. A mulher matou uma galinha e fez galinhada, passou a manhã inteira preparando a comida e, quando estava pronta, chamou Romãozinho para almoçar. O menino comeu e se fartou. Quando o garoto terminou, pediu a ele que levasse ao seu pai o prato que prepararia, antes que a comida esfriasse. Serviu bastante arroz e caprichou na galinha, colocando para o marido os melhores pedaços. Deu a Romãozinho para levar.
No caminho, embaixo da sombra de um jatobá, Romãozinho parou, retirou o lenço branco que fora cuidadosamente ajeitado para cobrir o prato mantendo-o quente, e começou a comer toda a galinha que ali estava. Comia e retornava com os ossos para dentro do prato. Ao terminar com toda a carne que tinha sido separada para o seu pai, recolocou o lenço sobre o prato, refazendo a amarra feita pela zelosa esposa, e continuou sua caminhada.
Encontrou o homem capinando o milho, chamou-o para almoçar. Quando seu pai retirou o lenço do prato, grande foi o susto ao se deparar com aquela quantidade de ossos sobre o arroz, já frio pela demora. Perguntou ao seu filho: “Romão, que é isto?” - “Sei não, pai!” respondeu. Seu pai retrucou: “Ocê sabe o que sua mãe tava fazendo pro almoço?” - “Num sei não, paizinho, pois ainda não almocei, mas ouvi ela gritar chamando o vaqueiro Zé Maria para comer uma galinhada que estava quentinha.” O marido não suportou. Largou a enxada, jogando o prato no chão e saiu na direção de sua casa. Ao chegar, não quis ouvir as explicações da mulher, espancou-a e a expulsou de casa, não deixando nem que ela pegasse suas roupas e seus pertences, colocando-a para fora, ordenando que sumisse por esse sertão sem fim. A mulher só teve tempo de olhar para o garoto, que permanecia impassível, fitou-o no rosto e, imaginando o que teria acontecido, disse: “Romãozinho, procê não há solução, ocê é o próprio capeta, o caramulhão, o capiroto encarnado, veio a esse mundo pra causar sofrimento a todos, Deus vai te castigar, ´cê vai pagar pelo que tá fazendo!” Jogou a praga antes que se fosse.
Era praga de mãe, profecia desferida contra o próprio filho da qual não se poderia escapar. Tempos depois, subitamente, o menino adoeceu e começou a definhar, ficou tão magro que seus ossos estavam quase à vista, aflorando da pele. Um dia sumiu, não se sabe se morreu, pois não acharam o corpo, simplesmente sumiu, não deixando vestígios. Dizem que pena em nosso mundo, apesar de não ser vivo, nem morto, não é alma, não cresce nem descansa, vive a perambular pelo cerrado, visível em rápidas assombrações.
O que se vê, durante suas aparições, é um prato cheio de ossos de galinha, que carrega como penitência por todas as suas malinagens. Contudo, continua aprontando, o que mais gosta de fazer é atirar esterco, paus, pedras e areia nas panelas de comida, levando ao desespero os moradores das humildes fazendas de todo norte de Minas.
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