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MEUS ENCONTROS COM SÃO GONÇALO

Caso você, leitor, seja um violeiro que tenha o coração envolvido no ofício da danada, não vai estranhar as coisas que vou contar. Nem vai duvidar. Mesmo porque deve ter também alguma coisa prá contar. Desde já deixo claro que apesar de ser espiritualizado e cristão não sigo nem freqüento alguma vertente religiosa  específica.  Só sei que fui recrutado por São Gonçalo...

por Rui Torneze

PRIMEIRO ENCONTRO

Apesar de meu pai ser de origem interiorana, Casa Branca, aqui do estado de São Paulo, saiu de lá ainda criança e não trouxe em sua bagagem cultural coisas que nos pudesse transmitir. Ele cresceu aqui na cidade de São Paulo e na adolescência tocava trompete em uma banda de jazz tradicional. Obviamente eu nasci e cresci em ambiente urbano. Quando me dei conta do mundo que tinha em casa, o trompete de meu pai, do qual eu de vez em quando tentava, com insucesso, tirar algum som e um pequenino violão, que ficava empoeirado e  guardado em baixo da cama. Quando tinha dez anos fiquei sabendo que na igrejinha perto de casa iria começar um curso de violão. Passei a mão naquele “traste” velho e caí na estrada, sem avisar pra ninguém. Voltei da primeira aula com os dedos amarelados de tanta ferrugem das cordas. Comecei e nunca mais parei. Nessa época perdi minha nonna (minha vó, italiana), da qual minha mãe se desfez, por doação, de todos os seus objetos pessoais, à exceção de duas coisas : um copo comprido com uma plantinha e uma imagem de um santinho que ninguém sabia o nome, mesmo porque só fora notada a sua existência quando da falta de minha nonna.
O tal “vasinho” improvisado sempre foi deixado na cantoneira do armário, ao lado do santo, até então anônimo para nós lá de casa. Passaram-se muitos anos. Em certa ocasião uma amiga de minha mãe, dona Etelvina, natural de Virgínia, sudeste de Minas Gerais, uma pessoa muita culta e consciente das suas origens esteve lá em casa, olhou para a imagem do tal santo e disse para minha mãe: - “Olha que interessante... vocês têm São Gonçalo em casa... só via isso no interior...”
Minha mãe conta que disse: - “São Gonçalo?? Que santo é esse??”
Dona Etelvina explicou: - “São Gonçalo, o protetor dos violeiros...  ora, por isso que o teu filho é violeiro...” 
Pois é... o tenho até hoje em minha estante, em lugar de destaque, além, é claro, da missão que me foi confiada.

SEGUNDO ENCONTRO

Dia 15 de dezembro de 2000. Verão. Férias. Já lecionava eu viola na ULM (Universidade Livre de Música). Estava no litoral norte de São Paulo com meu filho mais velho Lucas, já com onze anos, iniciado na viola aos nove, hoje naipe de solo da Orquestra Paulistana de Viola Caipira.
Precisávamos subir para a capital, pois às 15 horas tinha eu agendado uma reunião com o meu coordenador da ULM a fim de solicitar o aumento de mais um dia de curso para a turma da viola caipira. Pegamos o jipinho e tomamos rumo. Passamos pela íngreme serra da Moji-Bertioga. De Moji das Cruzes para São Paulo a serra do Itapeti e no meio desta o inesperado: o carro começou a falhar e de repente “morreu” com o painel todo aceso. Pronto, a desgraceira estava formada: reunião marcada..., o menino comigo..., o carro cheio de violas... estrada desassistida (na época) e o carro quebrado... A anarquia era iminente. Observamos que adiante, após a próxima curva, os carros que passavam diminuíam a velocidade, onde desconfiamos ter barreira da polícia rodoviária. Era um bom lugar para deixar o carro em segurança, tomarmos um ônibus de volta até Moji e comprar, após análise, a peça avariada. Empurramos o jipe adiante e logo constatamos o esperado. Havia uma viatura e um policial do outro lado da pista, parando os carros de vez em quando para averiguações de rotina.
Ao encostarmos, abrimos o tampo do motor para procurar o defeito. Nisso o tal policial veio até nós, parou de fazer o seu serviço e com muita boa vontade, parecendo dominar bem a mecânica automotiva começou a comandar um série de testes com a finalidade de detectar a origem do defeito, vindo por fim a constatar uma peça quebrada dentro do distribuidor do veículo. Por sorte eu tinha em minha mala de ferramentas a peça antiga, porém original, que há duas semanas atrás eu tinha substituído por essa nova que acabara de quebrar. O policial mesmo trocou, já com as mãos todas sujas de graxa. Ao final, testamos e o veículo voltou a funcionar. O alívio foi grande. Dava tempo de chegar à reunião e provavelmente conseguir o intento dessa. Começamos aí a guardar as ferramentas e providenciamos uma estopa limpa para o policial limpar as mãos. Disse ao Lucas para ir se despedir do guarda e também agradecê-lo enquanto eu recolhia as últimas coisas. Falei para ele observar que geralmente o nome do soldado vem destacado  através de uma tarja na altura do bolso da camisa, orientando para respeitosamente tratá-lo pelo nome que ali estivesse  assinalado, já que o mesmo fora muito gentil e cumprido com tarefa além do seu dever.
O menino voltou com a face ruborizada e rindo de uma forma discreta e meio que inconformado. Não entendi à princípio aquela reação e fui eu agradecer e me despedir. Quando porém me pus a ler o nome grafado em sua farda, devo ter ficado pálido. Estava assim escrito : “S. Gonçalo”.  Disse a ele : “Obrigado seu Gonçalo pela sua atenção”. O mesmo respondeu : “Estamos aqui para servir”. O “S.” deveria ser o primeiro nome do soldado, como “Sérgio” ou “Sílvio” ou coisa parecida. Só sei que passo impreterivelmente toda a semana nessa estrada e nunca mais vi providencial soldado. Ah! consegui o intuito da reunião e aumentei para mais um dia a carga horária dos violeiros na ULM. Para mim, foi pela ajuda do “S. Gonçalo”. Entenda como quiser...

 


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