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O SENTIMENTO DAS FRÔ
de Márcia Lemos Fonseca Barbosa
(para Terezinha Maria de O. Gomes)

Dizê que as frô não chora,
isso é engano dotô:
frô tamém tem sentimento,
tamém sabe sentir dor
e sofre tanto que pode,
oiano a dor dum vivente,
inté mudá sua cor.
O sentimento das pranta
tá comprovado no causo
que agora vou contá:

...vai pra mais de vinte ano
quando eu, mocinha nova,
conheci o meu amor.
Eu me alembro, se me alembro...
...foi numa noite de lua,
com procissão, cantoria,
as moça tudo facera,
o povaréu sastifeito
na festa da padroera.
Pois foi nessa dita festa
que o destino me armô
uma armadilha de amô
na figura de um moreno,
violero e cantadô.
Apois que, quando cantava,
seus óio, nos meu, oiava
(era um oiá de candeia)
que inté o coração se ria
e mal comparano, seu moço,
era vê um anjo bão
louvano a Virge Maria.
Parecia que pissuía
dois tigre aprisionado
nas grade escura dos óio;
mas quando pra mim oiava,
os óio dele amansava,
dano inté a parecença
que em paina se transformava,
só pro mode me abraçá.
Quando ele se sorria
no se rir a gente via
a dentaria briano,
cumo se fosse, no brejo,
os lírio se alastrano.
O castanho dos cabelo,
que os dedo fino do vento
teimava em despentiá,
era penuge macia
dos peito dum sabiá.
Apois que, quando tocava,
nervoso meus pé ficava,
num conseguia pará;
minhas anca, antão, gingava
no balanceado da moda
que ele tava a tocá.
Tão comovida eu andava,
que a frô de quaresmera
que eu havia ponhado
nos meus cabelo a enfeitá,
c'uma corage acanhada,
prendi na viola dele
e lá ela ficô presa,
cumo presinha de tudo
eu tava no seu oiá.

(O namoro principiô
naquela hora dotô.)

Enquanto o tempo passava,
o nosso amô se firmava,
e contano os dia nos dedo,
nóis tomava as providença:
...ele, ajeitano o casinha,
eu, fazeno o enxová
pra modi nois dois se casá.
Inté que a hora chegô
e naquela mema capela
da santinha padroera,
nosso destino selô.
Pois foi numa noite fria,
Co'a lua mansa a briá,
que eu, vestida de branco,
com meu moreno bonito,
inha, afinar, se casá.
Ninguém comprendeu pruquê
uma noiva tão fremosa
um gáio de quaresmera
com suas frozinha rosa,
levava como buquê:
mais meu moreno, seu moço,
no repente apercebeu
que aquela frô que eu tragia
era iguá a frô que um dia
enfeitô sua viola
e, ergueno a sombranceia,
no entremeio de um se ri,
um beijo ele me jogô.
Dali pra diente, seu moço,
taliquá o meu boquê,
a vida foi cor de rosa,
juntinho do meu bem querê.
E foi na casinha branca,
bem no arto das barranca
do riacho roncadô
que trêis moradô se arrancharo:
nois dois e o nosso amô.
Nos hora que nóis se amava,
a boca do meu moreno
e seu nariz cheradô
corria meu corpo intêro,

que era vê um perdiguero
campeano perdiz no campo,
e seus dedo de violêro
alisava meus cabelo,
enquanto seus óio preto
revoejava meu corpo,
taliquá dois pirilampo.

O tempo foi se passano
e a natureza abençoano
aquela nossa união,
inté que, naquela noite
de lua mansa tomém
veio uma febre malina,
uma trimura danada,
que uma sumana durô,
fazeno, de meu moreno,
uma fornáia, dotô,
inté que os óio dele
devagazinho fechô.
Mas o derradero oiá
foi em mim que ele botô,
e o seu corpo minguado,
sufrido, desenganado,
a Nosso Sinhô se entregô.
Naquela hora, seu moço,
o céu se ajuntô c'o a terra,
a Natureza parada,
as árve nem balangava
em respeito a minha dô.
E cumo era de tardinha,
hora da Ave-Maria,
somente a mãe-da-lua,
piano, mais parecia
uma criança a chorá.
E mais eu me entristecia,
sabeno que num teria
os braço do meu moreno
às noite a me apertá.
Ah, seu moço, a dor foi tanta,
e tanto me machucô,
que num posso oví viola,
nem a voz d'um cantadô;
e ao despois que ele foi embora,
meus pezinho dançarino,
nunca mais que eles dançô.
Nas tarde de paradeza,
quando as estrela aparece
e os pirilampo, nas grota,
já principêia a piscá,
eu lhe confesso, seu moço,
pra mode me aliviá,
ergo os óio céu acima,
sórto o coração nas campina
e baxinho vô chamano
o nome do meu amô.

Num sei se é 'maginação,
pode memo inté que seje,
mas aquela estrela guia,
a premêra que alumia
o peito do firmamento,
quando as tarde envém caíno,
são seus óio de candeia
lá de riba me avisano
que pressegue me amano,
me quereno tanto bem;
meu peito entonce se aperta,
nó de sedenho esticado,
e meus óio umedecido
arresponde comovido:
eu num te esqueci tomém!...

Apois, seu moço, adescurpe;
com tanta recordação,
eu lá inha me esqueceno
de lhe prová o motivo
dessa minha narração:
é sobre o chôro das frô.
Presseguino o meu contado:
...meu benzinho, alí deitado,
as mão cruzada no peito,
carecia d'um agrado;
antão, o senhô escuite:
fui saino pro terrêro
pra, no pé de quaresmera,
um gainho apanhá,
e nas mão do meu amô,
um buque depositá.
E meu pranto inha pingano,
enquanto eu ali chorava,
moiano o raminho de frô;
pois foi entonce que elas,
comovida, comovida,
foro mudano de cor;
e do rosa alegre de antes,
elas foi se transformano
num roxo triste, tristonho,
cumo se um pintor tingisse
as frozinha cor de rosa
com as tinta da minha dor.

E é por isso que eu digo
e arrepito, seu moço:
num foi milagre, feitiço,
nada disso não sinhô;
é que as pranta, cumo a gente
tem sentimento, dotô.

Fazenda da Glória (Ouro Fino-MG)
Setembro/1993

RIQUEZA DO VAQUEIRO
por Euro Parrique / poeta e ex-tropeiro

Meu patrão tive pensano
Na vida de eu e vancê:
Eu sô um pobre vaquêro
Sem tê terra nem dinhêro
E nunca prindí a lê.

Inquanto vancê, meu patrão,
Tem dinhêro a riviria;
Eu ganho um cobre suado
Sempre campiano o gado,
Atráis do pão de cada dia.

Vancê tem casa de luxo
E dróme im corchão macio;
Eu tenho um rancho barriado
E pelos buraco, eu deitado,
Vejo a lua e sinto frio.

Vancê tem carro importado
Pra rodá pru tôdo lugá;
Eu tenho um cavalo alazão
Qui corre pru êsse sertão,
No lombo a me carregá.

Vancê tem muitas fazenda,
Tem terra de cismaria;
Mais eu cá num tenho é nada
E tangeno o gado na istrada
Só tenho a noite e o dia.

Vancê num sabe patrão
O tanto de gado qui tem,
(Pois tôdo dia é contado)
Qui bizerro, da vacada do gado,
Nasce muito mais de cem.

Vancê tem cavalo de raça
Qui ganha nas ispusição,
Tem animá valioso
Tôdo cuidado e lustroso;
Eu só tenho meu alazão.

Vancê cunhece o istrangêro,
Já andô inté de avião,
Atravessô os ociano,
Andô qui nem cigano;
Eu só cunheço o sertão.

Mais o sertão qu'eu cunheço
Tem beleza sem iguá:
Tem o rolá das cascata,
O chêro gostoso das mata,
Tem o sol, tem o luá.

Tem brejo, tem mataria
Tem as fulô mais cherosa
Tem o canto da passarada
Tem o orváio da istrada
E tem as cabôca formosa.

E as muié mais bunita
São as fía do sertão:
A pele lisa, sem pintura
Mostrano a beleza pura
Pisano de pé no chão.

A sua fazenda, patrão,
Tem limite, tem frontêra;
Minha terra é o sertão!
É todo pedaço de chão
Dessa terra brasilêra.

Eu num perciso cunhecê
As terra dos istrangêro,
Pois vivo c'oa natureza
E ninhum lugá tem a beleza
Desse meu chão brasilêro.

Eu tenho forró de sanfona
Dançado no pó do chão;
O této é o céu azulado
E o terrêro é luminado
Com o luá do meu sertão.

Eu tenho as água dos regato
Pra podê me refrescá;
O chêro das fulô das ramada
E o canto da passarada,
Eu tenho pra me alegrá.

Eu vejo os bicho do mato
Corrê sôrto nas quebrada;
Eu cunhêço todas as tría
E vivo com muita aligria
Sempre a cuidá da boiada.

Eu só pissúo um cavalo
E duas muda de rôpa,
Mais vivo disprocupado
Sem mêdo de sê robado,        
O qu'eu tenho é coisa pôca.

Já vancê num dróme direito,
De tanta procupação
De perdê sua riqueza,
De cunhecê a pobreza,
De tê qui lutá pelo pão.

Quem pode tirá o qu'eu tenho,
É só Deus Nosso Sinhô,
Pois, minha riqueza, patrão
É sê fío do sertão,
Sê pueta e trovadô.

Eu sô livre como o vento
E nada tenho a perdê.
Sô feliz, vivo cantano...
Meu patrão, tive pensano,
Sô mais rico que vancê!

 


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