O CAUSO DO SETE ORELHAS
A cidade mineira de São Bento Abade foi palco de um dos crimes mais afamados já ocorrido no passado. Na fazenda do Tira-Couro (que ganhou esse nome), sete irmãos tiraram a pele de um sujeito e o deixaram à morte, devido a um entrevero de divisa. Januário Garcia, irmão do falecido, ganhou fama nacional quando ao longo de sua vida, um a um foi encontrando e eliminando. O curioso é que de cada um dos assassinos, Januário cortava uma orelha, que, depois de seca, enfeitava seu colar, exibindo para quem quisesse ver, ganhando por isso o apelido de "Sete Orelhas". Foram mais de quarenta anos de procura, com um final bem à moda dos filmes de faroeste, com todos eles vingados. Hoje, quem chega à cidade de São Bento, depara-se com uma estátua em homenagem a esse que foi um dos filhos da terra mais determinado em sua empreitada, a exemplo do que mostramos no número anterior, na cidade de Ouro Fino-MG. Se a sua cidade possui algo curioso, envie-nos para estarmos mostrando no "Balaio de Gato". (Pinho)
SETE-ORELHAS
(Pinho/Tanando)
Eu vô contá uma estória que aconteceu no passado / de um cabôco decidido com destino atormentado / foi Januário Garcia, seu nome de batizado / sabia desde menino que nasceu predestinado / No sítio Campo Formoso vivia sempre ocupado / ele mais seus dois irmão, com pai e mãe já erado / mas tinha ali, na divisa, um sujeito estrupiado / com sete filho pagão, tinha parte com o diabo / A cobiça e a covardia dos sete desnaturado / sob as orde desse pai teve um triste resurtado / O irmão de Januário, João Garcia era chamado / teve a sorte decidida, por eles assassinado / Numa fria madrugada, chegano o dia marcado / amoitaro na capoêra, todos os sete bem armado / pegaro o moço no laço e ali foi condenado / no galho de uma figuera, sem pele, foi pendurado / Januário quando viu o irmão morto, abandonado / caiu de joelho por terra e jurou, desesperado: / - De hoje até num sei quando, valha meu Jesus louvado / eu num quero paz na vida até ver meu irmão vingado! / Na invernada dos Teixêra, quatorze dias passado / dois dos sete criminoso viu seu momento chegado / no fio de uma peixêra eles foro recortado / duas orêia fartano, seus corpo foro encontrado / Correu mundo sem frontêra naquilo sempre apegado / um a um foi encontrano e a seu tempo eliminado / em seu colar, sete orêia era troféu afamado / Já podia por um fim na caçada dos tar curpado / na sua viage de vorta, aconteceu um riscado / Januário apiô no pôso de um povoado / tinha uns cabôco esquisito jogano, embriagado / procurava por descanso, quando foi desafiado / Naquilo o tempo parô num silêncio carregado / quando em cima da mesinha um cordão foi atirado / eram sete orêia seca, uma-a-uma, lado-a-lado / foi só jagunço espaiano, correno, apavorado / - O meu nome é Sete-Orêia, pra quem fô interessado / já fui um homem tranqüilo, vivo hoje atormentado / já cumpri minha promessa, meu nome já foi honrado / por esse sol que alumia, nunca matei cabra errado! / Mas, vô dizê o que sei, pra num sê contrariado: / - primeira vez que eu matei, me senti aliviado / na quarta, peguei o jeito, na sexta tinha gostado / se a oitava for agora, vamo fazê o roçado! / Januário pegô rumo, no seu burro esfumaçado / pra cidade de São Bento, regressô realizado / pra viver o que restava do seu destino traçado / feliz, valendo da sorte de ter seu irmão vingado!
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