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Três Corações, Sul de Minas Gerais, Fazenda das Goiabeiras. Na entrada da casa do casal Pedro e Márcia, Rock, o cão boxer, anda meio jururú. Sua consorte, a cadela Luana, morreu recentemente, vítima da picada de uma cobra urutú-cruzeiro, deixando-lhe como herança a filha Bonitinha. Fora a tristeza do cachorro, o resto é só alegria. Num final de tarde do mês de maio, lua cheia, os músicos e convidados que participarão do “Iº Encontro de Violeiros de Três Corações” já estão aportando na casa. Segundo os místicos, a quinta lua cheia do ano é um período mágico e envolvente, época em que os deuses deixam o céu e vem festejar com os mortais, aqui embaixo. A noite promete.

Na cozinha, as mulheres preparam os quitutes que serão saboreados em breve:
mandioca frita, lingüiça, pão-de-queijo, pernil, torresmo, galinhada e outras
delícias da culinária mineira.

Logo terá início o Terço de São Gonçalo, a cargo de um grupo de rezadores da
vizinha cidade de Cambuquira, liderados por Luizinho Germano. Uma das últimas
grandes expressões da cultura e da fé popular, o terço é hoje uma manifestação
em extinção, mantida por poucos. Os privilegiados ali presentes sabem da
riqueza do evento e esperam avidamente pela sua realização.

Mas quem foi São Gonçalo? Protetor dos violeiros, São Gonçalo do Amarante,
santo português, teve seu culto permitido pelo Papa Júlio III, em 1551. Foi um
grande tocador de viola e para converter os pecadores dançava com pregos nos
sapatos (botas), para se penitenciar, para afastar os desejos da carne. Assim,
nada mais natural que a sua devoção e o seu terço passassem a serem rezados
com muita música e dança, nas cordas das violas, pelos violeiros com muita
alegria e cantoria. “Os outros santos querem que reze, mas São Gonçalo quer
que dance”, diz o adágio popular.

No altar improvisado, a imagem do santo em madeira, feita por um artesão de
Cambuquira, resplandece. O terço vai ser rezado no galpão/ateliê, onde Márcia,
a mãe de Pinho e Tanando, os organizadores desse encontro musical, confecciona
seus delicados trabalhos artesanais. Aos poucos as pessoas vão chegando. O frio
da noite outonal toma conta do recinto. Os violeiros rezadores vão tomando seus
lugares. A cantoria tem início. As fitas nas violas dão um colorido especial aos
instrumentos.

Os violeiros vão se aproximando do altar, iniciando a reza, o cântico dos mistérios
do terço, em número de cinco. Intercalados pelo Pai Nosso, Glória ao Pai e as
Quadrinhas, o ritual vai tomando conta de todos. Alguns chegam a ter lágrimas
nos olhos, tamanha a força do momento. Tradição e fé, juntos, falando a mesma
linguagem. “No terço de São Gonçalo não pode rir nem chorar; se alguém rir ou
chorar, São Gonçalo castigará”, entoam os violeiros e o público. Aos poucos,
todos começam a dançar. Os corações batem com mais intensidade, a
religiosidade aflora, as emoções se multiplicam. Após quase uma hora de honras
e louvor ao santo o terço chega ao seu final e o público, ainda inebriado pelo
momento, beija a fita aos pés da imagem e vai se afastando, sem dar as costas
para São Gonçalo, como reza a tradição. Todos estão com a alma lavada.

 

José Prado Netto é jornalista, crítico de música e amante do bom som de
uma viola. Mora em Três Corações, Sul de Minas Gerais - pmtc-ascom@bol.com.br