JARARACA E RATINHO
texto Yassír Chediak
Não existe estudioso da Música Popular Brasileira, da história do nosso Rádio, da nossa Televisão e, até mesmo da nossa política que não tenha ouvido falar da dupla Jararaca e Ratinho.
A história dos nomes é sabida, mas vamos recordá-la: no início da carreira por volta de 1918 - José Luís Rodrigues Calazans, o Jararaca, e Severino Rangel de Carvalho, o Ratinho, organizaram “Os Turunas Pernambucanos”, juntamente com Romualdo Miranda e Pirara (violões), Robson (cavaquinho) e Artur Sousa (ganzá) e todos adotaram nomes de bichos.
Em 1921, após apresentação de sucesso no Cine-Teatro Moderno, em Recife, junto com o já famoso Oito Batutas, o conjunto foi convidado para shows no Rio.
1922. Foi num Rio de Janeiro, então Capital Federal e cultural do país, cidade que vibrava comemorando o centenário da independência, que o conjunto se apresentou.
E o sucesso foi imediato, merecendo amplos elogios no jornal “A Noite”, de Irineu Marinho, o grande fundador de “O Globo”.
Seus trajes típicos e seus ritmos nordestinos causaram sensação junto ao público e “Os Turunas” foram convidados para gravar dois discos na Odeon. “Espingarda Pá-Pá-Pá”, (tema folclórico com arranjos do próprio Jararaca) logo se tornou sucesso.
Jararaca grava também “Passarinho Verde” e “Vamos Embora Maria”, ambas de sua autoria, em disco solo.
Em seguida excursionam pela América Latina, a convite de Abigail Maia, mas o conjunto se desfaz. Foi curto o tempo de “Os Turunas”, mas dele restou a dupla alegre e talentosa que, entremeando quadros humorísticos e emboladas, começaria carreira no teatro Santa Helena, São Paulo, em 1927.
Jararaca firmava-se, também, como compositor e, em 1928, Francisco Alves que seria chamado o “Rei da Voz” gravou dele “Meu Sabiá”, pela Odeon. Em 1929 Francisco Alves grava, agora pela Parlophon, “Meu Brasil”, também de Jararaca. No mesmo ano Jararaca e Ratinho gravam, também pela Odeon, seu primeiro disco, com “Caipirada” e “Lista do Baile”, ambas de sua autoria.
Excursionando pelo Brasil, com a trupe do grande Cornélio Pires, Jararaca e Ratinho tomaram consciência dos problemas do país e, desenvolvendo seus quadros humorísticos, fazem uma deliciosa sátira de nossos matutos, turcos, italianos, políticos, etc, e de nossas crendices e medos.
Em 1930 foi a vez de Ratinho gravar seu disco solo. Com seu saxofone, imortalizou em disco algumas de suas composições como “Saxofone”, “Por Que Choras”, “Cenira”, “Curiatã de Coqueiro”, “Eu e Eles”, entre outras.
A dupla passou a se apresentar, cantando músicas nordestinas e contando piadas na “Casa do Caboclo”, palco improvisado no Teatro São José, na praça Tiradentes. Apresentavam-se, também em clubes, praças públicas e, especialmente, na Rádio Mayrink Veiga, que fazia grande sucesso.
Em 1937, Jararaca foi o maior sucesso do carnaval brasileiro com sua composição, em parceria com o maestro Vicente Paiva, “Mamãe Eu Quero”, música que atravessou fronteiras e, com o nome de “I Want my Mama”, ganhou o mundo através do filme musical feito em Hollywood e estrelado pela “Pequena Notável” Carmem Miranda.
Durante o Estado Novo a dupla satirizava Getúlio Vargas, mas era visto com simpatia pelo então Presidente do Brasil. Rosa Nepomuceno, em seu livro “Música Caipira, da Roça ao Rodeio”, diz: “Foram saudados pelo presidente Epitácio Pessoa, por intelectuais como Ruy Barbosa e Monteiro Lobato, poetas como Olegário Mariano e Catulo Cearense”. E continua: “... a légua do eruditismo criaram uma música de tal qualidade que fascinou Pixinguinha, Villa-Lobos e o maestro inglês Leopoldo Stokowski, quando aqui esteve em 1940”.
A Rádio Nacional tornou-se uma potência e Jararaca e Ratinho tiveram seu próprio programa. Ali participaram também da famosa “Lira de Xopotó”, “essa moçada atrevida, tão famosa e conhecida, que tem talento na cabeça e tem força no gogó”. Neste programa representava um conjunto do interior, e Jararaca era o “Mestre Filó” enquanto Ratinho interpretava “Jararaca”.
Com o avanço da TV a dupla se transferiu para a TV Tupi, com o célebre “A-E-I-O-URCA”.
Outros sucessos viriam, como suas apresentações em “Balança-Mas-Não-Cai” e “Aquele Abraço”, na TV Globo.
Severino Rangel de Carvalho, o Ratinho, nasceu em Itabaiana-PB, em 1896, e faleceu em Duque de Caxias-RJ, em 1972.
José Luís Rodrigues Calazans, o Jararaca, nasceu em Maceió-AL, em 1896, e faleceu no Rio de Janeiro-RJ, em 1977. Rosa Nepomuceno, no livro já citado nos relembra: “O jornal americano “The Daily News”, no dia 11 de outubro de 1977, deu numa pequena nota a morte de José Luiz Rodrigues Calazans, o Jararaca. Com algumas linhas a mais, a imprensa brasileira noticiou o fato. O mito da nossa música popular já estava tão esquecido quanto aquele Brasil, mais ingênuo e feliz, que sabia rir de si mesmo”.
Jararaca, como o Brasil, também sabia rir de si mesmo, como demonstra esta história contada por Raimundo Araújo, em seu livro “Cantador Verso e Viola” (Pongetti Editores, 1974) que certa tarde foi visita-lo, em companhia do violeiro “Voador” e do poeta sertanejo Cláudio da Mota Cabral.
Durante a visita, fizeram improvisos entre Voador e Mota Cabral. “Como não podia deixar de ser, principalmente em se tratando de aniversário festejado entre poetas, uma garrafa da branquinha apareceu como por encanto.” O nome da pinga era “Muricí”. Mota Cabral, em verso, diz que quer beber com Jararaca. Voador, retrucou, glosando:
“Traga mesmo a Murici
não me atrapalhe a praça;
não me fale em Jararaca
que esta coisa não tem graça.
Que eu nunca vi neste mundo
cobra bebendo cachaça.”
Mota Cabral, que pertencera à FEB (Força Expedicionária Brasileira) respondeu:
“Não é motivo de graça,
Voador, vá escutando:
Eu estive na Itália
e agora estou confirmando,
eu não vi cobra beber
mas vi a cobra fumando!...”
Jararaca, mesmo sem viola, completou:
“Eu sou mesmo o Jararaca
gosto de chuva e sereno.
Se em cantoria me ataca
mordo de grande e pequeno.
Eu sou mesmo Jararaca
mas nunca tive veneno.”
Diálogo como este que transcrevemos abaixo, extraído do livro de Rosa Nepomuceno (e do qual extraímos também a discografia), ilustram bem o humor dessa época de ouro do rádio, época de Jararaca e Ratinho:
- Ô cumpadri, sabe que lá na minha cidade fizero uma torre tão arta, mais tão arta, que tivero que virá a ponta dela? - Pra que, cumpadri? - Pra lua podê passá, porque tava enganchada! - Ô cumpadri, na minha terra tem um trem tão ligêro, tão ligêro, que quando ocê entra nele já tem que comprá os bilhete de vórta! - Que mentira, cumpadri! Trem ligêro tem na minha terra! O sujeito brigô com o chefe da estação, foi dá um tapa nele e acertô no chefe da outra estação, distante 30 km
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