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CARREIRO E CARREIRINHO

por Maria Carolina Coelho

“Pra tocar viola, só os ano. Num tem método, nem escola, nem professor. Nunca fui um bom violêro, sempre segurei na voiz, mas só o tempo faiz um violêro. Aquele que pretende começá, se tivé talento, cantá bem e tivé muita vontade, comece... Mas só se fô por paixão. Quem quisé começá pra fazê sucesso ou ganhar dinhêro vai dá furo n'água. Sô apaixonado pelo que faço. Nunca, nem uma veiz pensei em desistir. Arranco minhas música do coração, do fundo do peito. Faço o que gosto. Num posso deixá disso. Essa é minha vida. Gosto de compô. Ninguém aprecia mais do que eu as minhas música. O grande fã do Carreirinho é o Carreirinho. Quando sento pra ouvi Carreirinho não atendo ninguém, nem telefone, nem nada...” Essas são palavras de Adauto Ezequiel, o Carreirinho, um dos maiores mestres na arte de tocar viola.

Adauto Ezequiel nasceu na cidade de Bofete-SP, no dia 15 de outubro de 1921. Filho de Sr. João Batista e Dona Domitilde Maria Pereira, Adauto é o caçula da família e por isso sempre foi poupado do trabalho. Apesar de trabalhar com o gado, ele nunca “pegou duro” nas lidas da roça e sempre ocupava seu tempo livre tocando a viola que ganhou do pai.

Adauto começou a se interessar pela viola graças ao vizinho Sr. João Tropeiro que era violeiro. Com 15 anos mudou-se para Pardinho-SP, e já fazia seus versos ainda na escola, onde aconteceu seu primeiro show quando apresentou uma moda de viola de sua autoria intitulada “Minha Vida” e foi muito aplaudido. Mas foi num circo, em 1945 que Adauto formou sua primeira dupla. Por dois anos ele tocou com três parceiros diferentes até formar sua primeira dupla de sucesso.

Adauto Ezequiel e Lúcio Rodrigues de Souza participaram, em 1947, de um concurso na rádio Record para escolher o nome da dupla. Entre sugestões como “Tupi e Tupã”, “Pardinho e Pardal”, “Minguinho e Mingote”, a escolhida pelo público foi “Zé Carreiro e Carreirinho”. Juntos atuaram por dez anos com sucesso absoluto na rádio Record e gravaram vários LP's, quando no fim da década de 50, Zé Carreiro se afastou da carreira artística devido a um problema de audição. Carreirinho descreve sua relação com Zé Carreiro: “Na minha vida Zé carreiro foi tudo. Eu não me destacaria no meio artístico se não fosse o Zé Carreiro. Eu reconheço isso. Fomos feito um para o outro. Tínhamos duas vozes irmãs. Aquela segunda voz era suave, bonita, e se encaixou com a minha que foi uma beleza. Não nos dávamos muito bem, tínhamos alguns desentendimentos, mas profissionalmente, nos respeitávamos muito”. Mesmo após o afastamento do parceiro, Carreirinho continuou com sua carreira e fez mais algumas duplas de sucesso.

Outro parceiro de Carreirinho foi um mulato mineiro, bom violeiro e com uma voz grave e belíssima, que ficou conhecido como Tião Carreiro. “Tião Carreiro e Carreirinho" gravaram cerca de dez discos de 78 rpm e um LP. Também fizeram shows em toda a região de Brasília. Carreirinho se tornou compadre de Tião carreiro, já que batizou sua filha Alex Marli.

A partir de 1968, Carreirinho formou dupla com sua esposa, Iracema Soares Gama, com a qual cantou durante 16 anos. Mas foi em 1990 que Carreirinho começou uma nova etapa na sua vida, quando formou dupla com Carreiro (Sebastião Gonçalo), um grande admirador e estudioso da obra de “Zé carreiro e Carreirinho”.

Carreiro mostra toda sua admiração pelo parceiro: “Eu não posso dizer que sou grande violeiro, eu posso dizer assim que perto do Carreirinho eu sou apenas um violeiro”.

Segundo Carreirinho, Carreiro foi seu parceiro com o qual melhor se identificou em amizade. Aos 82 anos, Carreirinho segue sua carreira artística ao lado de seu parceiro Carreiro, com quem já gravou um LP e dez CD's.